domingo, novembro 09, 2008

Amigos meus, amigos...

Amigos meus

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.
Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 1964 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.
Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso figado.
E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Mas sobretudo não morrais, amigos meus!
Vinícius de Moraes
1965

in Para uma menina com uma flor (crônicas)
in Poesia completa e prosa: "Para uma menina com uma flor"

16 comentários:

Codinome Beija-Flor disse...

Mas AMIGO que é AMIGO fica pra eternidade.
Você tá na minha lista NEGRA dos AMIGOS, mas tá numa das minha listas (não some tanto tempo não).
Bjos

elvira carvalho disse...

Não conhecia este texto do Vinicius. E adorei.
Um abraço bom Domingo, e... não cometa a ingratidão de se deixar morrer.

Sandra Leite disse...

Pedro, amanhã saio do meu inferno astral :) Tudo vai melhorar :D

beijokas

Ivan Daniel disse...

Pois é, meu amigo... gostei do texto. Que bom eu ter lido. Estou sobrevoando o inferno. O corpo deu um sinal, e agora tô correndo atrás do prejuízo.
Abraço.

citadinokane disse...

Minha querida beija-flor,
Estás na minha lista, ok?!
Não fugirás tão fácil, ehehehe...
bjs

citadinokane disse...

Elvira,
Sou eterno!
Ahahaha...
abs

citadinokane disse...

Sandra,
Com inferno ou paraíso, gostamos de ti, sempre!!!
bjs

citadinokane disse...

Ivan,
Um conselho, foges do prejuízo, ok?!
abs

citadinokane disse...

Aviso aos navegantes,
Estou sentado ao lado do amigo Oliviomar que acabou de chegar de Portugal, ok?!
Abraços no coração dos amigos.
Pedro

Flavia Sena disse...

Adorei!!!!!!!!!!
bjs

citadinokane disse...

ADORAMOS!!!
bEIJOS

citadinokane disse...

Flávia,
Vem cá!
vem!
beijos

Anônimo disse...

Avizinha-se nova ida a Bel , te passei um mail , vc recebeu???
Abs
Tadeu

as-nunes disse...

Que pena não ter seguido mais destes conselhos do Vinicius de Morais.
Chegamos aos quase 62 e começamos a fazer o Balanço. As contas não batem certas com o que se tinha orçamentado, ainda que por mera tentativa de aproximação.
É a vida, dizemos nós! Mas podia ter sido outra, com maior aproveitamento! Talvez sim, talvez!
Um abraço, Pedro
António

citadinokane disse...

Tadeu,
Agora tá certo!
Como Capitão-do-mato ficarei responsável por levar-te ao querido pé-sujo - Ranulfo.
E nada de chegar ao meio-dia e "rasgar" de madrugada, ok?!
Recebi o e-mail mermão!
Tamos na tua espera, hein?!
abs

citadinokane disse...

António,
O poetinha sempre despertou em mim a necessidade de valorizar as coisas simples da vida...
Os amigos são indispensáveis...
abs,
Pedro