quinta-feira, dezembro 25, 2008

Dá-me sonhos...

Então é Natal...
E estou aqui jogado no fundo de uma rede, com todo o cansaço do mundo.
Mas, existe aqui dentro a vontade de compartilhar com todos os amigos os sentimentos que me invadem sem permissão, é verdade! Eles vão entrando n'alma e como donos da situação, deixam até as portas abertas...
E aí percebo que é Natal...
Já falei alhures que sentimentos contraditórios me confrontam nessa data.
Meu amigo e irmãozinho caçula David em um arrazoado diz-me que sou amargurado, e pergunto-me: - Sou amargurado, garaio?!
A resposta seca e muda: - És!
Imediatamente, Zé Rodrix me ajuda, aproveito e faço a colagem:
"Não quero lhe falar...
De coisas que aprendi
Nos discos...
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa..."

Mas, é Natal...
Amigos e amigas compartilho um texto de Fernando Pessoa que foi declamado por Maria Bethânia no Show e LP - Rosa dos Ventos em 1971, até publiquei aqui no blog esse poema, mas como é Natal, peço desculpas por repeti-lo, quem sabe dos sentimentos contraditórios que falei, me perdoará, com certeza!
Sempre considero tão atualizado esse poema, acredito na poesia revelando os sentimentos que vão adormecidos e que irrompem como um furacão quando os dias são tranqüilos... E quero dizer que Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos.
Feliz Natal amigos e amigas.
Poema do Menino Jesus (Fernando Pessoa)
"Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro da Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar".

4 comentários:

Codinome Beija-Flor disse...

Beijo enorme nesse coração.
Porque vc tem o espírito de Natal todos os dias.
Bjos

citadinokane disse...

Querida amiga,
O meu coração é menor que o teu, com certeza!
Viva 2009!!!
bjs

Xico Rocha disse...

Querido amigo, há um "muy pequeño" equivoco, Vossa Eminência cometeu a triste eleusinia em favor do grande Zé Rodrix, à uma composição de nosso querido Belchior.
Um forte abraço

citadinokane disse...

Pô Xico!
Tens razão! Eu com aquela música na cabeça - eu quero uma casa no campo... Acabei misturando as bolas.
Belchior.
abs