terça-feira, março 17, 2009

Elias Pinto.

A imagem acima é do jornalista Elias Pinto abraçado ao poeta Max Martins que faleceu recentemente.
Já havia lido a coluna do Elias Pinto no Diário do Pará, e como diria o impoluto Vieirinha de Marapanim: - O cara escreve para garaio!
O Elias é um intelectual atento ao movimento das marés... De uma simplicidade que me deixou encantado, o conheci pessoalmente e batemos um papo muito legal, o papo rolou lá no Boteco do Ranulfo, em post do ano passado havia mostrado o Elias empurrando um fusca do amigo, achei hilariante a situação, sempre será engraçado ver um intelectual fazendo esforço físico, e olha que o Elias se esforçou de verdade, mas a bateria do fusca não queria nada... O Elias tem o espectro dos anos 70, as madeixas são compridas, a tez branca e óculos redondinho estilo John Lenon, eis o articulista do Diário do Pará.
O maior fã do Elias Pinto é sem dúvida alguma o Vieirinha de Marapanim, e depois que comentei que conheci o Elias Pinto, ele pediu que publicasse o artigo abaixo, pedido feito, pedido realizado.

Algodoal Mon Amour (Elias Pinto - Diário do Pará - 03/01/07)
"Sem rádio e sem notícia da terra civilizada, sem rádio e sem notícia da terra civilizada... Fiquei assim uns quatro dias, voluntariamente isolado em Algodoal, alheio ao que vinha do mundo civilizado, da execução de Saddam (que mais lembrava um bate-boca entre azulinos e bicolores no Ver-o-Peso, com alguém puxando a peixeira no calor da hora) à posse de Ana Júlia, Lula e do Rio de Janeiro pela bandidagem. Sem esquecer da miudeza cotidiana de trucidamentos, baleamentos, esfaqueamentos, linchamentos, arrombamentos e assaltos a granel que povoam a rotina de uma cidade progressista como Belém.
Da minha travessia (meu caminho é de pedra, como posso parar?) para a ex-quase-futura- pretérita- quem-dera- quase-que- perfeita Algodoal vocês podem depreender que consegui – nesses meus dias de Luiz Inácio – finalmente atravessar a linha fronteiriça da 14 de Março e escapar de Belém. Que nem faz o prefeito Duciomar Costa.
Caros & caras (nenhuma alusão à Ilha de Caras), depois de uma animada travessia, em que os passageiros buscavam restos do pai-nosso aprendido na primeira comunhão, mal pus os pés na terra (quer dizer, afundei os pés na lama de Algodoal), não cheguei a beijar o solo, a modo do finado Santo Peregrino, mas corri para a primeira cerveja, como quem celebra o encontro do Santo Graal.
Desembarcado da aventura náutica, digna de um Ulisses homérico, tive de encarar outra, agora sobre uma esbodegada ponte que parecia saída de uma daquelas produções B da Segunda Guerra Mundial, ou da série C, a Terceirona, a da guerra no Iraque.
A ponte atravessa para as bandas de Fortalezinha, do outro lado da ilha de Maiandeua (se é que aprendi a lição dada pelos nativos, de que Algodoal é a vila, a ilha chama-se Maiandeua). Minha primeira noite seria passada numa solitária casa encravada no meio da mata ilhéu, que até os nativos de Algodoal consideram, ali, o fim do mundo.
A ponte, disseram-me os ilhéus, foi feita para durar os quatro anos de um mandato (sim, por lá eles já aprenderam a soletrar “su-per-fa-tu- ra-men-to” ). Nem a carroça com seu respectivo burrico (ou cavalo), transporte que congestiona a ilha, arrisca-se, carregado de tralhas, a passar pela ponte. Tanto que nos esperou do lado de lá. Jumentos improvisados, tivemos de carregar a sacolada no lombo, através da inenarrável ponte pensa.
Do lado de lá, a caminhada ao sol do meio-dia (quem lembra do conjunto paraense que levava esse nome, hein Minni Paulo?) deu-me a estatura de um personagem graciliano de Vidas Secas. Depois de agasalharmos a bagagem (vendo a coisa pelo lado positivo, pelo menos não a perdemos pelos desvôos da vida), emendamos até Fortalezinha. Na volta, sob um luar a servir de batedor, e um céu cravejado de estrelas cintilantes (de tão belo que era, cabe nele este lugar-comum) , cumpri uma das minhas mais inesquecíveis caminhadas. Que nem as topadas de tirar sangue tiraram o brilho (pelo contrário, alumiaram o caminho com mais estrelas nascidas da dor).
No dia seguinte, tornamos (eu, Regina e Sofia) a atravessar (ou, à Carroll, desatravessar) a ilha, passando por Algodoal até a praia da Princesa. Conseguimos pernoitar numa pousada – favor acrescentar aspas a esta “pousada”. No alvorecer da manhã seguinte, um sábado radiante (sai, lugar-comum, deste texto que não te pertence), vejo o que parece uma miragem. Rompe-me à frente, na barraca ao lado, não o ano-novo, mas o ex-senador Ademir Andrade, abrindo caminho, feito um bandeirante baiano, para a chegada de sua carroça emburricada. Quer dizer, como miragem é de coisa boa, retirem o termo e substituam como quiserem. Podemos convocar o vice Odair Corrêa para preencher esses pontinhos pontinhos pontinhos no lugar de miragem.
No sábado, de volta da Princesa, baixamos acampamento na vila de Algodoal. E aí deu para constatar o abandono da ilha por parte do governo, do município (que é o de Maracanã). Para quem trombeteia o turismo, é grotesco o descaso a que uma jóia como Algodoal é relegada.
Não vi uma única lixeira para ao menos estimular os de boa vontade a cooperar. O que se vê é o turismo do subdesenvolvimento. Nenhuma fiscalização, orientação. Algodoal resiste graças à sua população nativa – para o bem e para o mal.
Os próprios carroceiros tratam de recolher o descarte do combustível de seu veículo de um cavalo. Servem de guias turísticos, conselheiros ecológicos. É aquela coisa: se o governo não ajuda, que então não atrapalhe. Os algodoalenses (será que é isso?) agradecem.
Outra coisa que me abestalhou foi a quantidade de birita que o sovaco dos visitantes comporta. Sob cada sovaco viam-se garrafas de uísque (dos vagabundos, a maioria), vinho (idem), cachaça e tudo que é tipo de mé. É assustador assistir ao desfile incessante daquela gente se embebedando, às claras, com água que passarinho não bebe (ele é passarinho, não é burro), aliás, nem este Pinto aqui. E olhem que sou insuspeito para falar.
E não vi um único policial nas imediações. Me senti em Belém. É um milagre que, com tanto líquido ardente (e põe ardente nisso, sob aquele teto solar) consumido, ao lado de outras cositas mais, a ilha não se transforme naqueles círculos infernais dantescos. Há uma espécie de código em vigor, combinando as leis de Baco e de Marcelo D2, em que os vapores do álcool e a neblina da diamba mantêm todos acesos, prontos para a próxima, depois da rebordosa. Aqui, mais uma vez, vale a regra: se o governo não policia, então que não atrapalhe. Deixa rolar.
Antes de voltar, ainda deu tempo de ouvir um carimbó de raiz cantado por Mena, o Menezes. Voltei no domingo, na paz, a tempo de passar o ano em casa, ao lado da companheira, em torno de vinhos e frios – e de uma suposta lareira, que eu voltei um tanto quanto goró.
Último aviso aos navegantes. Janaína, estridente líder local, me pediu para cobrar o muro de arrimo, para sustentar a terra e conter o avanço das águas e a erosão do terreno.
Como vocês também podem depreender, já estou do lado de cá da 14 de Março".

10 comentários:

nizstchelo disse...

Fale Mecogi

Que beleza a crônica do Elias Pinto. Herdeira da melhor tradição cronista de nosso país. Tê-lo em nossas páginas diárias constitui uma honrosa execeção num mar de mediocridades. Ele não se diferencia porque é fácil mas porque é brilhante.
Só uma coisa, seu maior fã não é o Bruno "Cabeção" Soeiro, mas este humilde leito que vos diz.

Abraços

Marcelo Costa

citadinokane disse...

Marcelinho,
Vou falar para o Elias que dois leitores dele estão disputando o lugar de fã nº1 com facas amoladas... ahahaha...
Bom te ver vivo, mermão!
abs

Xico Rocha disse...

A coisa é genética, tal como seu irmão Lucio Flávio, o cara é bom no que faz.
Um abraço
Xico Rocha

Elias disse...

Salve, salve Pedro:
Sem demagogia barata ou populismo de araque, eu é que sou fã dos leitores. Em qualquer situação ou mesmo sacrifício, é pensando nos leitores que encontro força (eita que isso já tá parecendo carta-testamento do Getúlio) para erguer o dedo cata-milho e digitar mais uma palavra.
E naquele domingo, companheiro, só valeu.
Aquele abraço,
Elias

citadinokane disse...

Xico,
Não é genética, é esforço pessoal mermão!
O Elias é bão.

citadinokane disse...

Ei Elias!
Nós vamos sentar para esmiuçar aqueles passos, né?!
Pô mermão! És uma pessoa muito tranquila e é bom compartilhar cerveja contigo, ahahaha... Viste que não falei em suco de uva, hein!
abraços,
Pedro

Elias disse...

Salve, companheiro.
Vamos, claro, tocar em frente aqueles primeiros acordes. Deixa eu tocar umas paradas que estão pendentes. Pode ir preparando o suco.
Aquele abraço.
Elias

Anônimo disse...

Porra , cerveja com o Pedro e o Elias , garaio , vou também.
Abraços
Tadeu -

citadinokane disse...

Elias,
Qualé mermão?! Suco?! Tá me tirando, mano?!
Ahahaha...
Manovelho resolva essas paradas e de repente pode dar samba, né?
Não esqueça do Ranulfo no sábado, hein!
abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Ei Tadeu!
O Elias não só escreve bem, é bom para garaio de papo, ele é cervejeiro renitente... nem joga pro santo, um dos nossos!
abraços