terça-feira, março 24, 2009

Roger e a turma da "ganhação"

O pequeno Roger era um garoto muito traquino, e bem sabia disso a sua tia que era chamada carinhosamente de Tia Preta. Aqui pelo norte "preto" ou "preta", "nêgo" ou "nêga" são palavras usadas para tratamentos carinhosos. Não me venham com papo de discriminação racial peloamordedeus! Minha irmã até um tempo desse era chamada de nêga e tudo bem.
Mas, voltando ao pequeno Roger, menino peralta, gostava de brincar na rua, os pais se separaram e a Tia Preta passou a ajudar a mãe do Roger na criação e educação dos pimpolhos... Tia Preta era educadora, professora mesmo! E exercia com muita autoridade esse papel com os sobrinhos queridos, e lá estava inserido o endiabrado Roger.
Roger em suas reminiscências, começa a revelar um pouco de sua história, um gole... e mais outro de uísque, ele vai soltando, ou melhor, vai liberando em borbotões as lembranças de um tempo que ele foi muito feliz...
Ele pede ao garçom um duplo generoso, o garçom não escutou direito e aproxima para anotar o pedido e aí o Roger diz: - Mais uma dose garaio!
Devidamente hidratado pelo malte, ele retoma a sua odisséia, vai dizendo que onde hoje funciona a FAP, ali no entorno da faculdade existiam uns barracos e um pessoal muito bacana... Ele pára por um momento, o olhar perdido no horizonte, toma mais um gole e percebo que os olhos dele estão a marejar das recordações. Tento desconversar, pensando que estaria ajudando, mas, o Roger quase monossilábico e com o rosto molhado de emoção, suspira e diz: - Pô mermão!
Desde que li Antoine de Saint-Exupèry aprendi que "É tão misterioso, o país das lágrimas!", o Roger se derramava...
Após os soluços, Roger voltou a falar sobre a sua infância, articulava suas idéias com a agilidade de um guepardo, não havia espaço para interrompê-lo e ele seguia dizendo: - Teve um dia que na hora da chuva da tarde, eu fui correr com a turma da "ganhação", os caras corriam na chuva numa boa e eu ia só na moral... Mas, quando passei correndo em frente de casa a Tia Preta viu e me chamou.
O Roger fez uma pausa mais longa, me contive e deixei que ele continuasse, agora falava com a voz embargada: - A Tia Preta gritou pra mim, vem cá meu filho! E quando eu entrei em casa, a tia estava com a mão direita pra trás, e ainda disse - vem cá vem menino danado! Quando me aproximei entendi o que iria acontecer, a tia estava com uma vassoura de cacho de açaí na mão, eu estava sem camisa, ela não contou duas vezes e deu-me uma lambada nas minhas costas... Pô mermão! Eu senti tanta dor que acabei mijando na calça, e a Tia Preta sem pena de mim ainda deu mais outra ripada acompanhada das seguintes palavras - não te quero com amizade com pivetes!
Depois do choro convulsivo, o Roger passou a manga da camisa no rosto enxugando as lágrimas e sentenciou: - Santa vassoura de cacho de açaí.
Suspeito que ele quis dizer que aprendeu muito com a Tia Preta, né?

Vou providenciar uma dessas vassouras de presente para o Roger, que tal idéia?

6 comentários:

elvira carvalho disse...

Passei só para deixar um abraço, já que o tempo e disposição não me permitem mais.

M. Nilza disse...

vc se esqueceu de mim?

beijos

mari - pedra de alquimia disse...

Adorei os cachinhos de açaí, lindos!

citadinokane disse...

Elvira,
Que Deus proteja o teu pai!
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Nilza,
Não me esqueci de ti...

citadinokane disse...

Mari,
Esses cachinhos são teus.