segunda-feira, maio 18, 2009

Eles morrem, morremos nós...

Eles morrem, morremos nós...
Augusto Pinto Boal nasceu no Rio de Janeiro em 1931, e faleceu em 2 de maio de 2009 no Rio. Foi diretor, autor e teórico do teatro. Uma referência do teatro brasileiro e principal liderança do Teatro de Arena de São Paulo nos anos 1960. Criador do teatro do oprimido, metodologia internacionalmente conhecida que alia teatro a ação social. Utilizei as técnicas e dinâmicas desenvolvidas por Boal em sala de aula, gostava pra caramba do Boal, extremamente inteligente e sensível, perdemos alguém que irá fazer falta...
Fica abaixo o texto escrito por Boal e Chico Buarque num momento em que os homens de Atenas fugiam da perseguição, vivíamos uma ditadura...

Mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas, não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas


Qual não foi a minha surpresa em saber da morte do escritor, poeta, novelista - Mário Benedetti.

Te quero (Mario Benedetti)
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca...


O seu nome era quilométrico: Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti, nascido em 14 de setembro de 1920 em Paso de los Toros no Uruguay, o grande poeta Mario Benedetti morreu neste domingo, 17, em Montevidéu aos 88 anos, insisto morremos nós...

12 comentários:

Codinome Beija-Flor disse...

Sabe meu Amigo!
Não sei se choro pelos que partem.
Ou se choro, pelos que não nascem (nos dias de hoje, geniais como esses que se foram).
Bjos

elvira carvalho disse...

Um dia será a nossa vez. Enquanto isso não chega, vamos morrendo um pouco com cada um destes homens inspirados. E o universo fica mais pobre.
Um abraço

David Carneiro disse...

Nelito, vi uma entrevista do Boal um pouquinho antes de ele morrer. Ele falava de um projeto que desenvolvia com presidiários com um entusiasmo tão pujante como o de qualquer jovem engajado. Aquela entrevista me emocionou bastante e me fez ver, como no poema de Brecht, que os imprescindíveis, aqueles que lutam pela vida toda, realmente existem.

Um grande abraço,

David.

ManuelNeves disse...

Viva!

O Professor Agostinho da Silva, disse um dia que não sabia se ia morrer, até aí, só sabia que os outros morriam. Infelizmente, também faleceu e penso que nós também faleceremos.
Vamos tentar ser felizes enquanto vivemos.

Um abraço

citadinokane disse...

Beija,
O pior é que aqueles que nascem não são dignos de amarrar o cadarço do sapato dos que partem...

citadinokane disse...

Elvira,
E que seja bem tarde...

citadinokane disse...

David,
Essas coisas me deixam paralisado. Perdemos o que tínhamos de melhor, e a mediocridade continua batendo ponto na mídia diária, argh!!!

citadinokane disse...

Oi Manuel!
Viver é o grande desafio. Aceito o desafio e vou agora mesmo pra rua...

Xico Rocha disse...

Meu amigo Nelito Machado de Assis em sua obra Dom Casmurro fala que aos 15 anos somos eternos. Pena que tenhamos que fazer 16, 17, 18...

Falar de Boal não se faz necessário pois nós brasileiros o conheciamos muito bem, ou temos o dever de conhece-lo, vou me ater a Benedetti, este uruguaio que na época da ditadura, se enfileirou na contrariedade dos sistema e construiu muita coisa, pena que nós brasileiros por força do idioma nos distanciamos muito das coisas que foram feitas por uruguaios, argentinos, venezuelanos e etc...
Fica a saudade destes dois monstros sagrados.
Xico Rocha

Frederico Guerreiro disse...

Versos antológicos para mulheres antológicas.
Abração, Nelito!

citadinokane disse...

Sabe Xico, tens razão! Ficamos de costa para nossos hermanos... e tantas coisas boas, poemas e muitas emoções esvaindo-se sem que o brasileiro tome conhecimento.
abraços

citadinokane disse...

Fala Fred!
Versos fortes como as mulheres...
abraços mermão!