domingo, julho 12, 2009

Apenas uma oração.


Uma oração (Jorge Luis Borges)

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas
que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte
o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969,
quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se
trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que
humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado
pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares
de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes,
justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos
e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja,
é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro,
é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece
tal milagre. Não posso suplicar que meus erros
me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu
posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido,
não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de
meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou
sonhar que dou. Posso dar a coragem,
que não tenho; posso dar a esperança, que não está
em mim; posso ensinar a vontade de
aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado
menos como poeta que como amigo; que alguém repita
uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem
que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz,
e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante
não me importa; espero que o esquecimento não demore.
Desconhecemos os desígnios do universo,
mas sabemos que raciocinar com lucidez
e agir com justiça é ajudar esses desígnios,
que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente;
quero morrer com este companheiro,
meu corpo.
____________________________________
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

"Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade e as limitações do ser humano, nos coloca diante de reflexões nas quais, com freqüência, está presente o nosso próprio destino." (Miguel A. Paladino).

Nenhum comentário: