quarta-feira, julho 15, 2009

Passeando com Sócrates

Em tempo de consumismo exacerbado, tempo em que a essência é desprezada em favor da aparência... É bom ler Frei Beto!
A leitura de Frei Beto, com suas provocações, estabelece uma ponte para um encontro com o nosso "eu" sufocado pelas imposições capitalistas, e toda essa provocação deságua no mar da saudade, como diria o nosso amigo Cássio Andrade, saudade do tempo que a gente jogava peteca(sem pagar nada, ahahaha...) e empinava papagaio...

"Passeio Socrático (Por Frei Beto) Parte I

Ao visitar a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. 'Quem trouxe a fome foi a geladeira', disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A sociedade centrada no mercado, como diria o baiano Guerreiro Ramos, ou seja, centrada no lucro e não nos direitos da população nos submete totalmente ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais ao manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos 'Manuscritos econômicos e filosóficos' (1844), ele constata que 'o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem nenhum valor para nós.' Capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão."
(continua)

4 comentários:

Alan Wantuir disse...

Meditativa a postagem!

citadinokane disse...

Alan,
O que realmente nos faz feliz?
Depois que pessoas próximas partem de nossa convivência, para sempre, é necessário meditar sobre as coisas importantes da vida.
abraços,
Pedro

Cássio disse...

Ei, Pedro, me tira dessa história de jogar peteca! Eu gostava de brincar de "médico", "fura-fura", "cai no poço" e de "casinha, marido e mulher". Quanto ao Sócrates, depois que ele deixou a seleção grega na trinca com Platão e Aristóteles, passou a ser um craque no quarteto mágico da seleção brasileira com Zico, Falcão e Cerezo.

citadinokane disse...

Cássio,
Fura-fura, cai no poço e casinha???
É sacanagem! Duvido que seja realmente o Cássio que esteja escrevendo essas coisas...
O Cássio era do Politburo leninista-marxista da força socialista, esse papo de fura-fura, casinha, dava punição.