quinta-feira, agosto 27, 2009

A Verdade do Procurador por Roberto Pimentel

Amigo enviou-me artigo escrito pelo Delegado de Polícia Civil - Roberto Pimentel, no qual o mesmo faz uma análise sobre o caso que abalou a todos nós professores e profissionais da área jurídica do Pará. O caso que o artigo faz referência teve repercussão nacional e exige de todos os cidadãos reflexão profunda sobre a cultura do álcool, isto é, os abusos praticados por pessoas de bem que se transformam quando ingerem a desgraçada...
Não se pretende arreganhar a ferida, mas não há como sará-la sem que se aponte as causas do sangramento, Roberto sai em busca dessas causas...


A Verdade do Procurador (Roberto Pimentel)

Parece absurdo, mas estudo do Ministério da Saúde revela que diariamente no Brasil 290 mil pessoas dirigem alcoolizadas. E o excesso de bebida muitas vezes destrava a língua e revela o caráter do homem, emergindo aquilo que jaz no recôndito da alma. Foi o que aconteceu recentemente com um Procurador do Estado, ao ser apanhado inteiramente sob o efeito do álcool, segundo teste do bafômetro, indo parar em uma delegacia de polícia, onde passou a lançar diatribes contra os policiais presentes, cuja conduta alcançou difusão nacional. Não tão jovem, nascido em berço de ouro, terceira geração de família tradicional de juristas, com o currículo recheado de títulos conquistados aqui e no exterior, ao se encharcar da “mardita”, da “manguaça”, como qualquer mortal, desandou em revelar o que se passa em seu íntimo. Está no Evangelho que “a boca fala do que está cheio o coração”. A situação me trouxe à lembrança a batalha “tipo Davi e Golias” que a categoria de Delegados de Polícia trava junto ao Judiciário contra o governo do Estado para ter seus vencimentos paritários aos da categoria do bebum multi-diplomado, a sonhada isonomia, cuja luta se arrasta há mais de quinze anos, parecendo ainda longe seu desfecho. Os procuradores nunca externaram o que se imagina que pensam de nós, mas um deles não conseguiu segurar. E “se achando”, como coloquialmente virou moda, até com certa razão, vomitou seu aziúme. Pois, sendo detentor de maior conhecimento técnico, defendendo o Estado dos ataques judiciais ao erário, a maioria motivada pela má gestão de seus agentes, a começar pelo maior deles, acha que merece gozar os privilégios de uma casta de servidores aristocráticos, enquanto, os policiais, que defendem mal, que se diga, não porque não se esforcem, mas pela indigência de condições, mas defendem o cidadão, ou melhor, a coletividade, dos ataques à segurança de seu patrimônio e da sua vida, mesmo vivendo como os dahlits. Contra as imagens e sons gravados dos fatos não há argumentos. Afora o crime de trânsito, pelas concepções doutrinárias o procurador não cometeu desacato, porque, apesar de sua douta formação, não podia avaliar sua conduta quanto às ofensas irrogadas à honra do servidor público no pleno exercício de suas atribuições. “Tu és um otário, eu posso de chamar de otário, tu não pode, sabia disso?”(sic), “tu vai ser segurança de gente que vai te pagar, tu vai ficar gordo... tu vai virar corrupto um dia...”(sic), “eu sou advogado, eu sou Procurador do Estado”, “tu sabia que tu é babaca?”(sic) E nesse tom o doutorzinho desfiou tudo o que seu coração guarda: o preconceito, o nojo, o desprezo, por quem desempenha uma atividade simples, modesta, humilde, mas tão importante, tão necessária quanto a do advogado do Estado que enche a cara e sai dirigindo pela cidade, colocando em risco sua vida e a de seus semelhantes, principalmente os pedestres. Se não fosse contido, poderia, sabe Deus, imitar o deputado paranaense que recentemente, em condições semelhantes, ceifou duas vidas ainda jovens. Devia ele ficar eternamente agradecido por ter sido preso, interceptado ainda com vida, sem maiores prejuízos para si e para outrem, com sua integridade corporal preservada, diferentemente como ocorreu com o parlamentar, evitando maiores dores a sua família e famílias alheias. Em outro país, quem sabe, mesmo que não fosse para a cadeia, ele iria passar semanas realizando serviços educativos à comunidade, como forma de minorar seu ato, não bastando seu mea culpa simplório. Mas, um fato foi revelado: o conceito que o procurador tem de policiais, incluindo delegados, contra quem litiga em prol do Estado.


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Roberto Pimentel é Delegado de Polícia Civil

12 comentários:

Anônimo disse...

Puta Pedro , ví de relance o vexame , uma pergunta êle é parente
do Afonso Klautau????Segundo informações de amigos comuns o Afonso também desandou e não segurou a onda do alcóol.
Moramos juntos em 76-77 na D Romualdo.
Abraços
Tadeu

ROBERTO Monteiro PIMENTEL disse...

Meu caro Pedro,

É uma honra sem medida figurar em seu blog. Aproveito para adicionar um comentário que não fiz para não deixar maçudo o texto.
Mas, está patente que o procurador do Estado incorreu em transgressão disciplinar disposta no art. 178, XI, da Lei Estadual 5.810/94 (RJU) que assim dispõe: Art. 178. É vedado ao servidor: .... XI - referir-se, de modo ofensivo, a servidor público e a ato da Administração, cuja pena é de suspensão, conforme impõe a mesma lei em seu artigo 189 (A pena de suspensão, que não exceder a 90 (noventa) dias, será aplicada em caso de falta grave, reincidência, ou infração ao disposto no art. 178, VII, XI, XII, XIV e XVII). E mais, o dito estalão legal impõe que a autoridade hierárquicamente superior ao transgressor, no caso, o Procurador-Geral do Estado, tem o dever (não é faculdade) de mandar proceder a respectiva sindicância, conforme o artigo 199 (A autoridade que tiver ciência de irregularidade no serviço público é obrigada a promover a sua apuração imediata, mediante sindicância ou processo administrativo disciplinar, assegurada ao acusado ampla defesa). A omissão desse dever acarreta responsabilidade a autoridade que tem o dever de promover a apuração.

Luciene disse...

Casos como estes são sempre degradantes e tristes.É péssimo "ouvir" os impropérios de uma autoridade bêbada e descontrolada, (mas que felizmente foi detida antes de atingir a velocidade de 190 km com seu carro), mas é tão ruim quanto ouvir outra autoridade ( o tal parlamentar aqui de Curitiba que se encontra refugiado na casa do papai que é prefeito de um outro município) dizendo que "só não morreu pq. Deus tem algo preparado prá ele".....Há de ter, com certeza!!!

Newton Pereira disse...

Professor,
Aqui do meu refúgio acadêmico, acompanhei o caso, foi lamentável a o incidente com o nobre procurador.
O autor do texto nos leva a comprovar que no Brasil a questão da luta de classes continua pautando o nosso convício social.
Newton Pereira

Lafayette disse...

Pedrão, esta tem que ser viral:

http://xipaia.wordpress.com/2009/08/29/hino-nacional-por-vanusa/

:):):)

citadinokane disse...

Tadeu,
Parece que são parentes.
O procurador é professor e colega nosso, realmente foi uma mancada que tenho certeza não se repetirá, mas que deixou a todos que o conheciam, atônitos e assustados.
Se o álcool é problema, o melhor é beber leite, né?!
abraços

citadinokane disse...

Roberto,
Somos escravos de nossas palavras, o procurador está pronto para responder pelos seus atos, pelo menos isto foi dito no "mea culpa" dele, né?
Vou te linkar aqui no nosso espaço virtual, ok?
abraços

citadinokane disse...

Lu,
Ainda bem que não atingiu os 190...
Devemos ter consciência do impacto social de nossas palavras e atos praticados.
Assino embaixo o que escreveste.
beijos

citadinokane disse...

Newton,
Ainda continuas um marxista-leninista clássico, ahahaha...
abraços

citadinokane disse...

Lafa,
A Vanusa estava bêbada?
O que foi que deu nela?
Eu tomei um susto, meudeusdocéu!
abraços

Newton Pereira disse...

Professor, a primeira aula de Teorias do Estado foi o prefácio do Capital, o velho Marx continua dando as cartas iniciais.
eh eh eh eh e
Newton Pereira.

Ah! ainda tem Lukacs.

citadinokane disse...

Pô Pereirinha!
Foste ressuscitar o velho e bom Marx... Isso pode dar uma confusão, hein!
Não sei não, mas os cardeais do PT vão te olhar "atravessado", depois começas a fazer discursos insidiosos e aí vem Lênin e Trotski... Bom, deixa pra lá!
abraços,
Pedro