domingo, setembro 27, 2009

Vinicius, eu e Periquita...


"Como eu nunca lutei para deixar-te
nada além do amanhã
indispensável: um quintal de terra verde
onde corra, quem sabe, um córrego pensativo;
E nessa terra, um teto simples
onde possas ocultar a terrível herança
que te deixou teu
pai apaixonado - a insensatez
de um coração
constantemente apaixonado."
(Vinicius de Moraes)

Acima as linhas que numa tarde de domingo chuvosa [eu quieto, bem quietinho mesmo!] lia atento, sentindo o pulsar do coração do meu poeta popular e camarada - Vinicius... Lia como se estivesse lendo um testamento sentimental, de tão sentimental o texto do poetinha, que me vi impregnado de sentimentos, sentimentos à flor da pele... Incontinenti, resgatei da pequena adega uma singela garrafa do Periquita [pô cabeção! tô falando do vinho português, entendeste agora?!], devidamente climatizada [meudeus como amo essa adega] o líquido a derramar-se na taça e a minha mão impune levantando o cálice e vertendo goela-a-dentro o licor dos dioses, e como num passe de mágica, os sentimentos aninhados em meu peito, transbordando...
E o poeta vai falando sua poesia, e eu murmurando, dentes cerrados: -Te entendo poetinha... Nós pais, amamos nossos filhos e morreríamos por eles.
O poetinha continua falando:

"E porque te fiz com o meu sêmen
homem entre os homens,
e te quisera para sempre escravo
do dever de zelar por esse alqueire,
não porque seja meu,
mas porque foi plantado
com os frutos da minha
mais dolorosa poesia .
Da mesma forma que eu, muitas noites,
me debrucei sobre o teu berço e verti
sobre o teu pequenino corpo adormecido
as minhas mais indefesas lágrimas de amor,
e pedi a todas as divindades que cravassem
na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos
e tanto tempo separados,
e o que o convívio criou
nunca a ausência pôde destruir."
Com o rosto umedecido pelas lágrimas que alardeavam a minha condição - humana, simplesmente humana... Num movimento brusco, uso a manga da camisa como lenço, digo para Vinicius: - Por que fazes o sentimento desabotoar do peito o coração? Por insistência, continuo perguntando: - Por que celebraste a vida e o amor?
Após muitas taças de Periquita, vejo nitidamente Vinicius se materializando à minha frente, não fiquei assustado, o vinho tem a propriedade de deixar a gente valente, basta lembrar o exército romano da antiguidade, bem... Vinicius materializado não quer vinho, pede um uísque, claro que disponibilizo todos, ele agradece e diz: - Gêlo, por favor!
Uma dose, duas e outras mais... O poeta complementa a sua poesia em viva voz, nunca sem antes solicitar mais uma dose, uma dose dupla, generosa mesmo! Ele com voz embargada, derrama os seus versos:

"Assim como eu creio em ti
porque nasceste do amor
e cresceste no âmago de mim
como uma árvore dentro de outra,
e te alimentaste de minhas vísceras,
e ao te fazeres homem rompeste
meu alburno e estiraste os braços para um futuro
em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés
os pés do menino que eu fui um dia,
em frente ao mar;
e na aspereza de tuas plantas
as grandes pedras que grimpei
e os altos troncos que subi;
em tuas palmas as queimaduras do infinito
que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba,
e o teu sexo do meu sexo,
e há em ti a semente da morte
criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo,
é uma caverna interminável,
em cujo recesso esconde-se um tesouro
que me foi legado por meu pai,
mas cujo esconderijo eu nunca encontrei,
e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade
se transformaram nestas estreitas veredas
da madureza,
e o Sol que se põe atrás de mim
alonga a minha sombra
como uma seta em
direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar
oculta,
e eu não quero ter medo
de ir ao seu inesperado
encontro."

Vinicius seguia cantando a vida e a morte, e eu? Foram três garrafas de Periquita... Eu firme. Seria um fenômeno de paranormalidade? Vinicius diante de meus olhos, não estava fora de mim, continuava sóbrio, e incrível, abraçados eu e ele, com a mão direita ele levantava o copo de uísque dos bão e eu com o meu indefectível Periquita, éramos uma alegria melancólica contagiante, ele balbuciando:

"Por isso que eu chorei tantas lágrimas
para que não precisasses chorar,
sem saber que criava um mar de pranto
em cujos vórtices te haverias também
de perder.
E amordacei minha boca
para que não gritasses
e ceguei meus olhos para que não visses;
e quanto mais amordaçado,
mais gritavas;
e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim
uma mulher cruel
em cujos braços me abandonei
sem remissão,
sem sequer pedir perdão
a todas as mulheres
que por ela abandonei."
Já inquieto, argumentei com o meu poeta camarada, para que viver como ele viveu? Polêmico, ácido e amoroso ao mesmo tempo, eis Vinicius de Moraes! Amado e odiado pelas mulheres... Pagou o seu preço, é verdade!
Artífice das palavras, trouxe a poesia para os mortais brasileiros, de maneira simples, foi rascunhando entre um uísque e outro as mais lindas trovas do cancioneiro popular, como não amar Vinicius? Cada poesia e canção transformaram nossos sentimentos tão altivos e importantes... Vinicius desperta paixões, se a pessoa não tiver preparada, é melhor não ler Vinicius, como dizem os meus alunos: - Vinicius é porrada!
Quando percebi que não conseguia concatenar mais as ideias, perguntei: - Poetinha por quê?
Respondeu-me:
"E assim como sei que toda a minha vida
foi uma luta para que ninguém
tivesse mais que lutar:
Assim é o canto
que te quero cantar,
Pedro meu filho..."
A poesia acima é de Vinicius de Moraes, o título é: "Pedro, meu filho."

8 comentários:

Ivan Daniel disse...

Pedro, meu amigo... tu bebeste ou fumaste esse Periquita? Pô, mermão! Tu ficaste doidão! Eu também quero.

Lafayette disse...

No próximo encontro, leva três dedos desta periquita pra mim, mano!

citadinokane disse...

Ivan,
Tenho que parar de beber esse Periquita, ele mexe com a gente, sério!

citadinokane disse...

Lafa,
Bora marcar para um Periquita, lá no Terra do Meio?!

Amordemadrugada disse...

Citadinoka
ne!
Mas que beleza!
Acredito ke também já estaria esse tal de Periquita a falar por si! Lol
Ainda se fosse uma Pirikita! Eheh
Mas que lindo, sinceramente! Amei esse teu falar as coisas!
Ah! E quero agradecer a tua passagem lá no meu mar...espero ke tenham sido uns bons Momentos para ti...
Boa noite, tá?
Beso em tu
;)

citadinokane disse...

Amordemadrugada,
Foi muito bom viajar pelas tuas águas, ahahaha...
Estarei sempre ali por perto, tenha certeza!
beijos

Anônimo disse...

Quando assistí o filme sobre o Vinicius ao terminar liguei pra minha mulher e emocionado falei bem alto : "Tenho muitas coisas em comum com ele".Quem estava por perto me olhou surpreso e imaginando : "Que cara metido" , então emendei de pronto:
"Somos alcoolatras , botafoguenses e apaixonados por nossas mulheres" quem escutou morreu de rir.
Grande Vinicius , Grande pedro Nelito
Abraços
Tadeu

citadinokane disse...

Tadeu,
Estou no momento profundamente emocionado,mas irei te responder, não há como se relacionar com a obra de Vinicius com indiferença...
Tudo o que escreveste assino embaixo da tua assinatura, e pronto! Vinicius sempre!
beijos