quinta-feira, outubro 15, 2009

Recírio

Ainda o Círio...
Que passa, sem passar...
A fé caminhando pelas ruas, às vezes, enredada em cordas, noutras, genuflexa, lacrimosa e apontando o céu.
Mesmo não sendo católico, ela não sai de mim, essa certeza de que a "mãe" está intercedendo por nós... me acompanha. Coisa que as leituras marxistas não apagaram, isso não se apaga não, porque foi concebido amorosamente.
Essas emoções, as minhas, encontrei todas, todas mesmo! Nas linhas rabiscadas pelo André Nunes, gosto desse cara.
Originariamente o título do artigo abaixo era "Círio Cabano", mas a revista "VEJA Belém" em 2007 publicou o artigo com o título "O Estado de Nossa Senhora de Nazaré".
Certa vez, estava no Café da Sol Informática e fotografei uma escultura de sucata de um artista paraense que agora não lembro o nome, depois vou checar o nome dele, pedi que ele colocasse na palma da mão a "santa" e a fotografei. Ei-la abaixo, a escultura de "Nossa Senhora com o Menino Jesus" feito de parafusos, porcas e etc.
Chamarei a minha fotografia de "Nossa Senhora da Sucata com o Menino Jesus dos Parafusos", ok?!

O Estado de Nossa Senhora de Nazaré

“Paraense, sou ateu. Filosoficamente, materialista. Mas, acima de tudo, sou devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Este último atributo, no mês de outubro, transcende os demais. É inerente ao ser paraense. Durante algum tempo, no auge do obscurantismo ideológico da juventude, ainda tentei renegar minha devoção, porém, romântico inveterado, há muito deixei de remar contra a maré. Mergulhei de cabeça no paraensismo: açaí, tacacá, Ver-o-peso, marés, rios e ilhas, canoas e torço nu. E isso tudo, à imagem do próprio rio amazonas, como em um caudal, deságua em Belém no segundo domingo de outubro.
A colossal procissão do Círio, com seus milhões de romeiros, começa na Catedral da Sé e termina cinco ou seis quilômetros depois na Basílica de Nazaré. Mas um olhar atento vai além, vê que a romaria começa em cada furo, rio, igarapé, ilha ou beiradão. Canoas, ubás, caxiris, barcos a motor, velas ou remo. Começa nas palafitas e nos barrancos. Nos quintais das cidades, no porco cevado, no patarrão, no ralar da mandioca, no tipiti e no moer da folha de maniva, matéria-prima para o almoço do Círio – maniçoba e pato no tucupi. Farto e generoso. Para a família, os amigos e quem mais chegar.
O Círio começa no vestido de chita com babados, decote comportado e comprimento abaixo dos joelhos. Calça e camisa de manga comprida, novas, as únicas mudas de roupas compradas no ano, mas estreadas no Dia da Festa. Sapatos, sandálias, baixas ou de salto.
Tênis? Nenhum. Para acompanhar o Círio de Nazaré se vai descalço. Naturalmente. Começa com banho-de-cheiro. Vinde-cá, priprioca, patchouli, orisa, pau-cheiroso, chama, pau-rosa, catinga-de-mulata. E se vem de todos os cantos do Estado do Pará que, em outubro, se transmuda para além das fronteiras geopolíticas. Invade o Maranhão, o Amazonas, o Amapá. É como se fosse o Estado de Nossa Senhora de Nazaré. Esse é o núcleo central tangido pelas águas, senhora de todos os destinos. Essa é a procissão cabana de antes da estrada, do asfalto, do ônibus, do avião, do arranha-céu, do apartamento, do estacionamento proibido. Esta nova tribo do fast food também é bem-vinda. Por adesão, é claro. No Manto da Virgem e no coração cabano há sempre espaço de sobra. Apenas há que aderir ao espírito secular do Círio. Ficar mundiado pelo bom e pelo bem. Sentir-se igual. Caminhar descalço.
É por tudo isso, pelo peso dessa enorme bagagem da cultura paraense, que todos os anos, quando passa a Berlinda da Santa, este velho comunista se emociona e chora.”

André Costa Nunes, 67 anos (agora beirando os 70), escritor.

12 comentários:

M. Nilza disse...

Oi, menino!

Bom post! Grande né? rsssssss

Fé é uma coisa nata..

Beijos

Mari disse...

Pedro,

Parabéns pelo dia Professor!

Enorme beijo!!

Lafayette disse...

Ei, Dom Pedro, ficou duca!

Anônimo disse...

Laffa , vc tem a quem puxar , o cara é craque pena que ele estava descansando aquela sexta pois já se fazia tarde mas ele deu uma aparecida de relance e nos cumprimentamos o que já foi um gol.
Abs
Tadeu

Lafayette disse...

Dom Pedrito e demais:

"Extra! Extra!

Começou a ser contada uma história!

A BATALHA DA AMAZÔNIA começou a ser narrada pelo André Costa Nunes, no seu blog Tipo assim... folhetim.

http://tipoassimfolhetim.wordpress.com/

É coisa pra mais de metro e de megas bits!"

citadinokane disse...

Oi Nilza!
És sempre bem vinda!
beijos

citadinokane disse...

Mari,
Espero-te!!!

citadinokane disse...

Lafa,
Ficou maravilhoso.

citadinokane disse...

Tadeu,
O André é um boto.

citadinokane disse...

Lafa,
Essa batalha da Amazônia, huuummm...

Cássio disse...

Todos choramos, católicos e ateus. Menos os evangélicos... Viva Nossa Senhora de Nazaré!

citadinokane disse...

Cássio,
Deixa os caras quietos mermão!!!