domingo, dezembro 20, 2009

Releitura: Dante Milano, o poeta esquecido.

Estava relendo os meus posts e resolvi republicar um post que considero muito singelo, pela revelação por parte do amigo Nilton Atayde do poeta esquecido: Dante Milano.

Dante Milano, o poeta esquecido. (27/08/06)

"Quando nos encontramos em tertúlia, o amigo Nilton Atayde gosta de declamar a poesia de um brasileiro desconhecido, desconhecido mesmo, ou melhor dizendo, desconhecido para o grande público, porque pessoas como o nosso amigo estão sempre atentas ao bom alimento da alma – a poesia.
Não esqueço de um certo dia que estávamos em estágio alfa, tudo em decorrência da ingestão de destilados, fermentados e o líquido dionisíaco... O locobueres com a mão direita erguia uma taça transbordante de tinto chileno, com a língua pesada, palavras balbuciadas e os olhos quase que fechados, pergunta ao Nilton – Irmão como é o nome daquele poeta que tu gostas pra caramba?!
O indefectível Atayde responde ponderadamente – Qual deles, parceiro?!
O locobueres não responde, mas a sua mão direita agitada conduz a taça ao encontro dos lábios dissolutos... Bueres com a respiração presa e os olhos cerrados, verte goela a dentro o delicioso líquido vermelho, em pouco menos de 4 segundos restava apenas a taça vazia sobre a mesa, é isso mesmo, uma taça vazia e cheia de ar...
O locobueres recobrando o fôlego, complementa a pergunta feita antes ao amigo Nilton com a voz nasalar – É aquele poeta desconhecido e que o Manuel Bandeira também gostava.
Atayde agora alegre diz com todas as letras – Dante Milano!
Nilton não apenas declamou a poesia de Dante Milano, como fez questão de discorrer sobre a vida e parte da obra do poeta e assim aquela tarde findou-se alegremente.
Chegando em casa fiquei pensando, elucubrando em torno dos ensinamentos literários...
A brisa da madrugada a confirmar que só a experiência pode proporcionar aos pobres mortais, como nós, tesouros intangíveis, amealhados com a convivência dos justos e sábios...
A sabedoria nada tem a ver com a cultura acadêmica, a própria obra de Dante Milano não percorreu esses caminhos tortuosos tão bem guardados pela nossa intelligentsia tupiniquim.
Em um encontro recente com o amigo Atayde, trocamos muitas idéias e pedi que enviasse um e-mail sobre Dante Milano para que socializássemos com outros amigos e leitores informações sobre este grande poeta brasileiro, não tão conhecido como Vinícius e Mário Quintana.
Recebo as informações e abaixo publico na íntegra:

“Meu caro Pedro.
Eu não entendo porque algumas pessoas brilhantes têm o reconhecimento público e outras, igualmente brilhantes, não conseguem se destacar. Isso ocorre em todos os ramos do conhecimento, nas artes, na literatura, etc., e em todo lugar do mundo. No Brasil, por exemplo, e particularmente na poesia, existiu um poeta cuja qualidade nada deixava a desejar a outros como Drummond ou Manoel Bandeira, para ficar nessas duas expressões. Trata-se de Dante Milano (1899-1991), poeta carioca que, por muito pouco, não é absolutamente desconhecido na literatura brasileira. Aliás, pelo que lemos a seu respeito, ele fazia questão do anonimato, achava-se "avesso ao rumor de falsa glória", pois entendia que "só o silêncio é musical".
Dante Milano freqüentou as rodas literárias do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu, mas nunca esteve próximo da fama. Seu primeiro e único livro, "Poesias", foi publicado quando tinha 49 anos de idade e foi recebido efusivamente pela crítica. Embora convidado, recusou-se em candidatar-se à Academia Brasileira de Letras. Foi considerado por Carlos Drummond de Andrade "um poeta de extraordinária qualidade".
Incito-vos, portanto, a procurar conhecer melhor esse "extraordinário" poeta.
À propósito, existe amor falso e amor verdadeiro?
Com a palavra, Dante Milano, que além de poetizar, filosofa.

"O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro, falso. A diferença
Onde está ? Qual dos dois é verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isso faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro amor, pensam que és falso
Pensam que és verdadeiro, ó falso amor "
(POEMA DO FALSO AMOR)
Um forte abraço do teu irmão,

Nilton Atayde.”

Agradeço a colaboração do Nilton, e resolvi encerrar este post com mais uma poesia de Milano, eu sei que neste momento alguns amigos estão chateados com o post eles gostam de coisas rápidas, são jovens por isso estão perdoados, mas prometo amigos que será rápida, uma pequena poesia muito linda e comovente, que só acrescenta ao grande poeta que Atayde nos revelou acima, trata-se do poema a Pietà, nele Dante Milano trata singularmente da dor. Não fala da dor de uma santa, mas da dor de uma mulher, acima de tudo – humana...

PIETÀ

Essa Mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre,
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto! "

4 comentários:

Nilton disse...

Pô, Pedro, que legal a lembrança do Dante Milano. Relendo o teu texto, percebi mais nitidamente o quanto foste fiel ao comportamento do Bueres. Ri pra caramba imaginando o Locobueres daquele jeito. Muito Paidégua!
Nilton Atayde

Mari disse...

Pedro,

Que legal esta postagem. Eu, particularmente, não "curto" esses alongamentos de textos, com exceção dos literários, biografias de poetas, gosto muito. Esta eu li todinha viu!Não deu preguicinha, rsrsrs... Em pesquisas na net, recordo ter lido a respeito dele, há algum tempo, inclusive sobre esta poesia, mas nunca fiz nenhuma postagem dele e também não lembrava, confesso. Levo então, para postar em meu blog. Obrigada a vocês.

Bjs!

citadinokane disse...

Nilton,
Muito paidégua foi compartilhar aquela muqueca de arraia contigo e os amigos locos Rocha-Bueres...
2010 repleto de amor e muita paz.
Pedro

citadinokane disse...

Mari,
Papai Noel resolveu me devolver a tua amizade, vamos brindá-la com muito tinto Periquita, né?!
Feliz 2010!