"Como eu nunca lutei para deixar-te
nada além do amanhã
indispensável: um quintal de terra verde
onde corra, quem sabe, um córrego pensativo;
E nessa terra, um teto simples
onde possas ocultar a terrível herança
que te deixou teu
pai apaixonado - a insensatez
de um coração
constantemente apaixonado." (Vinicius de Moraes)Acima as linhas que numa tarde de domingo chuvosa [eu quieto, bem quietinho mesmo!] lia atento, sentindo o pulsar do coração do meu poeta popular e camarada - Vinicius... Lia como se estivesse lendo um testamento sentimental, de tão sentimental o texto do poetinha, que me vi impregnado de sentimentos, sentimentos à flor da pele... Incontinenti, resgatei da pequena adega uma singela garrafa do
Periquita [pô cabeção! tô falando do vinho português, entendeste agora?!], devidamente climatizada [
meudeus como amo essa adega] o líquido a derramar-se na taça e a minha mão impune levantando o cálice e vertendo
goela-a-dentro o licor dos
dioses, e como num passe de mágica, os sentimentos aninhados em meu peito, transbordando...
E o poeta vai falando sua poesia, e eu murmurando, dentes cerrados: -Te entendo poetinha... Nós pais, amamos nossos filhos e morreríamos por eles.
O poetinha continua falando:
"E porque te fiz com o meu sêmen
homem entre os homens,
e te quisera para sempre escravo
do dever de zelar por esse alqueire,
não porque seja meu,
mas porque foi plantado
com os frutos da minha
mais dolorosa poesia .
Da mesma forma que eu, muitas noites,
me debrucei sobre o teu berço e verti
sobre o teu pequenino corpo adormecido
as minhas mais indefesas lágrimas de amor,
e pedi a todas as divindades que cravassem
na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos
e tanto tempo separados,
e o que o convívio criou
nunca a ausência pôde destruir."

Com o rosto umedecido pelas lágrimas que alardeavam a minha condição - humana, simplesmente humana... Num movimento brusco, uso a manga da camisa como lenço, digo para Vinicius: - Por que fazes o sentimento desabotoar do peito o coração? Por insistência, continuo perguntando: - Por que celebraste a vida e o amor?
Após muitas taças de
Periquita, vejo nitidamente Vinicius se materializando à minha frente, não fiquei assustado, o vinho tem a propriedade de deixar a gente valente, basta lembrar o exército romano da antiguidade, bem... Vinicius materializado não quer vinho, pede um uísque, claro que disponibilizo todos, ele agradece e diz: - Gêlo, por favor!
Uma dose, duas e outras mais... O poeta complementa a sua poesia em viva voz, nunca sem antes solicitar mais uma dose, uma dose dupla, generosa mesmo! Ele com voz embargada, derrama os seus versos:
"Assim como eu creio em ti
porque nasceste do amor
e cresceste no âmago de mim
como uma árvore dentro de outra,
e te alimentaste de minhas vísceras,
e ao te fazeres homem rompeste
meu alburno e estiraste os braços para um futuro
em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés
os pés do menino que eu fui um dia,
em frente ao mar;
e na aspereza de tuas plantas
as grandes pedras que grimpei
e os altos troncos que subi;
em tuas palmas as queimaduras do infinito
que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba,
e o teu sexo do meu sexo,
e há em ti a semente da morte
criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo,
é uma caverna interminável,
em cujo recesso esconde-se um tesouro
que me foi legado por meu pai,
mas cujo esconderijo eu nunca encontrei,
e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade
se transformaram nestas estreitas veredas
da madureza,
e o Sol que se põe atrás de mim
alonga a minha sombra
como uma seta em
direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar
oculta,
e eu não quero ter medo
de ir ao seu inesperado
encontro."
Vinicius seguia cantando a vida e a morte, e eu? Foram três garrafas de Periquita... Eu firme. Seria um fenômeno de paranormalidade? Vinicius diante de meus olhos, não estava fora de mim, continuava sóbrio, e incrível, abraçados eu e ele, com a mão direita ele levantava o copo de uísque dos bão e eu com o meu indefectível Periquita, éramos uma alegria melancólica contagiante, ele balbuciando:
"Por isso que eu chorei tantas lágrimas
para que não precisasses chorar,
sem saber que criava um mar de pranto
em cujos vórtices te haverias também
de perder.
E amordacei minha boca
para que não gritasses
e ceguei meus olhos para que não visses;
e quanto mais amordaçado,
mais gritavas;
e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim
uma mulher cruel
em cujos braços me abandonei
sem remissão,
sem sequer pedir perdão
a todas as mulheres
que por ela abandonei."
Já inquieto, argumentei com o meu poeta camarada, para que viver como ele viveu? Polêmico, ácido e amoroso ao mesmo tempo, eis Vinicius de Moraes! Amado e odiado pelas mulheres... Pagou o seu preço, é verdade!
Artífice das palavras, trouxe a poesia para os mortais brasileiros, de maneira simples, foi rascunhando entre um uísque e outro as mais lindas trovas do cancioneiro popular, como não amar Vinicius? Cada poesia e canção transformaram nossos sentimentos tão altivos e importantes... Vinicius desperta paixões, se a pessoa não tiver preparada, é melhor não ler Vinicius, como dizem os meus alunos: - Vinicius é porrada!
Quando percebi que não conseguia concatenar mais as ideias, perguntei: - Poetinha por quê?
Respondeu-me:
"E assim como sei que toda a minha vida
foi uma luta para que ninguém
tivesse mais que lutar:
Assim é o canto
que te quero cantar,
Pedro meu filho..."
A poesia acima é de Vinicius de Moraes, o título é: "Pedro, meu filho."