sábado, janeiro 30, 2010

Vem, à Esquerda e em frente...

Antes de conhecer o autor da poesia abaixo, sempre relacionava a autoria ao poeta operário Maiakovski, até cheguei a postar aqui no blog sobre o engano que muitos cometeram, inclusive eu. Nilton Atayde e o Locobueres me chamaram a atenção sobre o poeta Eduardo Costa, eles tinham razão... A poesia não era de Maiakovski, mas sim de Eduardo Alves Costa...
Passado o tempo e lendo pausadamente o texto abaixo, renova-se a certeza de que é necessário caminharmos irmanados para a superação do abandono de muitos anos dos esquecidos de todas as periferias do Brasil.
Se o país não for de todos, não será de ninguém!

"No caminho, com Maiacóvski" (Eduardo Alves Costa)
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiacóvski.

Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.

Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA !

2 comentários:

Monique disse...

Mensagem profunda.

citadinokane disse...

Monique,
O coração grita...