quarta-feira, novembro 10, 2010

Crônicas do Xingu III por André Nunes

"A tarde faz pouco se foi. A Rua da Frente é voltada para o nascente.
Não se vê o pôr-do-sol.
Embora ainda paire o lusco-fusco, as luzes da cidade já se acenderam, mas ainda dá para divisar a ilha defronte que a estas horas parece que se torna maior, mais alta, pois à sua real dimensão, soma-se o reflexo das águas do rio. Não se distingue onde acaba o vero e começa o virtual. Nem isso tem a menor importância.
Não se notam os detalhes, mas também não chega a ser um mancha uniforme. Aqui e ali, uma copa mais frondosa se destaca contra o céu.
Samaumeira? Talvez.
A Ilha do Arapujá está lá, como sempre esteve, desde que o mundo é mundo. Milagrosamente intocada. Nunca ninguém se adonou dela. Não, que não se houvesse tentado, mas felizmente as investidas não prosperaram.
Arredondada, com um lago no meio, terá, talvez, uns cinco a dez quilômetros de comprimento. Isso também não importa.
Quando eu era menino ela era enorme. Fui crescendo e ela diminuindo.
Felizmente cedo a gente para de crescer. Em contrapartida é quando as coisas deixam de diminuir. Bom para mim, bom para a Ilha.
O Arapujá, não segue o padrão de toda ilha fluvial onde o caudal castiga a parte de cima, a corredeira escorre pelos lados, e acumula a areia no remanso da parte de baixo formando praia rasa.
Como o desenho de um cometa ou de um espermatozoide. Não, ela tinha que ser diferente. A praia que formou fica na parte de cima. A montante.
À noite, não se veem luzes na Ilha do Arapujá, ao contrário do Morro do Forte e do Pedra no Navio que lhes confrontam abaixo e acima, onde a cidade já chegou.
Olhando-se da beira do rio, se tem a impressão que o largo na frente da cidade é como um golfo ou um mar interior, mediterrâneo.
Todos os largos de rio que conheço têm nomes. No Baixo, são baías.
Baía de Souzel, de Porto de Moz, de Gurupá, de Curralinho, de Caxiuaná, do Marajó, de Guajará.
Rio acima chamam-se largos, mesmo. Largo do Souza, da Dourada, dos Mutuns, da "Cu de Pilão".
Este aqui, não tem nome, por isso, o chamávamos de Mare Nostrum.
Na ponta de baixo, onde o Arapujá chegava bem perto do Morro do Forte divisávamos nítidas as Colunas de Hércules. Gibraltar.
Subindo o rio, onde a ilha mais estreitava com a pedra do Navio e a ilha do Dimas, era, diz-que, o canal de Constantinopla."

Obs.: O texto acima é de André Nunes o "xamã do uriboca".

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