segunda-feira, novembro 15, 2010

Crônicas do Xingu IV por André Nunes.

"Arapujá. Nunca soube porque, nem donde vinha esse nome. Nem me lembro,antes de hoje, haver sequer matutado sobre o assunto. Quando nasci, já era. Quando meu pai chegou por aqui, há mais de um século, também.
Acho até que já nasceu Ilha do Arapujá.
Fica bem defronte de Altamira, a qual, já se vê, chegou bem depois.
Divide o Rio Xingu, este, sim, chegou antes, e deve ter sido seu idealizador, arquiteto e construtor.
A parte que nos coube é a da margem esquerda, de quem desce o rio, naturalmente.
A parte que me cabe, é a que ficou gravada na retina, na mente, no coração.
Imagem de menino, de adolescente, de adulto, de velho. Imagem de sempre. Eterna.
Quando criança pensei que nunca ia morrer. Como toda criança.
Os mais velhos riam e ensinavam: ninguém vive para sempre.
Eles não me entendiam. Isso não valia para mim.
Nunca mais falei no assunto, apenas, inventei, para fugir de tão negro determinismo, um vaticínio pessoal. Só meu que não podia ser compartilhado com ninguém:
- Nunca vou ficar velho e só vou morrer quando a Ilha do Arapujá acabar.
Pronto. Não se fala mais nisso.
E acompanhei a Ilha, a Ilha seguiu a lua, que seguiu me seguindo.
Naquele tempo havia a beira do rio, onde as mulheres lavavam roupa, as crianças brincavam, nadavam, pescavam. Mandi, cará, freixeira, pacu, branquinha.
Já maiores, taludos, ao cair da tarde, era o sítio ideal para confidências de amores, paixões, sonhos e questionamento do mundo.
À tarde a Ilha do Arapujá pegava o sol de frente. Ficava como que iluminada.
Quando o sol se punha por trás da cidade ela era apenas uma sombra refletida no espelho dágua. Mas sabíamos que sempre estaria lá, ouvindo a conversa. Cúmplice. Confidente. Atemporal.
Para nós outros, os anos passavam. Eles sempre passam. Menos para ela, a Ilha. Continuava a mesma, imponente, majestática e ao mesmo tempo fugaz. Diluía-se na paisagem como para não se fazer notar. Pudor de quem se sabe superior, eterno.
Três vezes por mês a Ilha se vestia de gala. Época de lua cheia.
A lua cheia para nós durava duas, três, até quatro noites. Era pontual.
Certo dia o Elio Miguez ainda tentou dar uma aula de astronomia. Falou bonito, de poesia, de lua peregrina, de plenilúnio, a tentar convencer-nos de que a tal pontualidade nunca poderia acontecer em mais que um dia. Risada geral. Claro que saía sempre no mesmo horário.
Ninguém ali tinha relógio. Ela, a lua é quem ditava a hora.
E saía pontualmente à hora que quisesse.
Ficávamos em silêncio apostando quem primeiro via o cocuruto da lua surgindo e vestindo o Arapujá com um manto ouro, prata, púrpura.
Um véu de noiva, branco, como uma estrada diáfana, espraiava-se pelo espelho dágua quase até onde estávamos."

Obs.: Post acima foi escrito por André Nunes.

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