quarta-feira, novembro 10, 2010

Crônicas do Xingu por André Nunes

Ao ler o que escreveu o xamã André Nunes sobre a sua vivência com o Xingu e a Ilha de Arapujá, gostei tanto que vou compartilhar as sábias palavras do homem que sempre viveu e vive, não teve nascimento e nem haverá de ter morte.
Um cronista daquela região... Abaixo excerto do artigo escrito no blog "TipoAssimFolhetim" do André Nunes.

"Escrevo livros, planto árvores, fiz filhos. Os cabelos brancos são uma falácia biológica.
Não fiquei velho. Essa parte do vaticínio, lembra, eu cumpri. Sempre terei a idade do meu neto mais novo.
Cultivo, e por vezes cultuo o passado sem nostalgias.
O meu tempo é agora. Sempre o presente. Até quando navego contra o vórtice da idade. Vejo e sinto com nitidez que o ontem nada mais é do que o presente de então, com sua circunstância, seus conceitos.
O presente é, apenas, o passado do amanhã.
Assim é fácil não envelhecer. Há que entender que a estrada da vida é a mesma. O que muda é a pavimentação. Ora de terra, poeirenta, cheia de buracos, ora plana, lisa, asfaltada.
Não sei se é curta ou longa, mas sei que de qualquer ponto consigo, com nitidez, divisar as estações que percorri.
Em cada uma delas, alguém ensinou-me alguma coisa.
No caminho, sempre tentava transmitir o que aprendera. Alguns ouviram, outros tantos, apenas trocaram de assento.
Se mais não ensinei terá sido porque pouco aprendi.
Devo, por minha vez, haver, mais do que devia, trocado de lugar.
Em cada trecho da estrada sempre havia uma renovação. O termo certo talvez seja atualização.
Novos aprendizados que se somavam aos antigos saberes.
Desta maneira fui enganando o cronômetro da vida.
Sem essa de Peter Pan ou Dorian Grei.
Apenas, as gerações foram passando, e eu me recusei a ir ficando.
A nova beira do rio de Altamira, agora tem uma mureta que a modernidade chama, não sei porque, de cais.
A rua da frente, das mangueiras, virou uma ampla “avenida”. Gramados e jardins, por vezes até bem cuidados. E bares. E telões. E caixas de som do tamanho de prédios. Não há música. Apenas som. Se é bom ou ruim é irrelevante. Não cabe aqui a expressão “o tempora, o mores”, até porque, cada “tempora” há que ter seus “mores”. Às vezes recorrentes ou repetentes. Os “mores”, nunca os “tempora”.

Debruço-me sobre o tal muro baixo que divide a modernosa “avenida” do que restou da beira do rio."

Nenhum comentário: