quarta-feira, novembro 24, 2010

"Eu, Odair José e o Se Rasgum" por Elias Pinto

Olha mais um texto do jamburânico Marechal Ribeiro Pinto, vulgo Elias...
Vejam com que facilidade o Elias transitava no Guamá e por sobre as estivas do antigo pedaço boêmio (uma espécie de sodoma e gomorra tupiniquim) de Belém: a velha e safada Condor. Namorar por lá (anos 70/80) com as garotas perdidas, era uma aventura... O Elias, tenho certeza, ainda irá registrar com tintas carregadas de nostalgia aqueles tempos malucos, saudades da gonorréia...
Mas deixa pra lá!
Vamos ler o texto que foi publicado hoje no jornal o "Diário do Pará". Quanto mais jamburana ingerida, mais lembranças dos loucos anos 80, dá-lhe Elias!
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Eu, Odair José e o Se Rasgum (Elias Pinto)
1. Vivendo e (des)aprendendo. Quer dizer que eu já era vanguarda desde o Guamá velho de guerra, do Palácio dos Bares, Patesco e outros inferninhos. Explico, explico, deixem de fissura.
2. Naqueles idos de 1979, 1980, por ali, a bordo da minha Belina cor de batida de jamburana, subindo ou descendo para a UFPA, eu costumava parar num dos bares nos arredores da praça Princesa Isabel, na Bernardo Sayão. Descia já carregando uma pilha de elepês, de Led Zeppelin, John Lennon, Doors e Miles Davis a Mike Oldfield, Alceu Valença e Diana Pequeno, passando por Charlie Parker, Chet Baker, Xangai e a turma do Clube da Esquina.
3. Enquanto mandava descer um Conhaque de Alcatrão São João da Barra, o conhaque do milagre (e desse milagre meu fígado é testemunha), pedia ao dono da birosca para ir tocando o meu repertório. Evidentemente, de vez em quando eu acedia (não é acender, eu não acendia nada, acredite se quiser) e abria uma exceção para atender o gosto da freguesia normativa do botequim, que, ameaçando descarregar o trabuco na minha cara, diziam – com a gentileza peculiar aos nativos daquela região guamaense – para dar um tempo naquela música de veado e tocar coisa de gente (ou de corno, comentário que eu me escusava de dizer em voz alta), tipo Reginaldo Rossi e Odair José.
4. Para agradar a gregos e guamaenses, passei a incluir no meu catálogo de elepês, além dos Pink Floyd cabeças, discos de Benito di Paula, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra e Nelson Ned, mostrando aos botequineiros que eu também, “avant la lettre”, era brasileiro e não desistia nunca.
5. Quem passasse por aquele bar, mesmo lá do asfalto (que para chegar até ele tinha de se equilibrar por uma longa e descabelante estiva, minha tradução, aproximada, para “The long and winding road”, do Paul McCartney), não entenderia como Lou Reed e Alípio Martins, Thelonious Monk e Fernando Mendes podiam sair da mesma vitrola de um boteco de periferia. Era eu pregando a fusion do chiclete com banana, da maçã com açaí, espécie de antecessor visionário do Se Rasgum.
6. Pois não foi esse espírito sonoro ecumênico que regeu a mais recente versão do Festival Se Rasgum, duas semanas atrás, ao reunir Otto, André Abujamra, Madame Saatan e Odair José no mesmo embalo dissonante? Então eu já era Me Rasgum todo naquele pé-imundíssimo no Guamá, celebrando o caldeirão da Cuca (não, querida, não é você) naquele sítio do picapau amarelo ensandecido que tinha à porteira o boqueiro Milton Gaivota. Não me perguntem como eu descobri e elegi aquele boteco sem-lei para beber e ouvir música. E muito menos como saí dali vivo. E também não venham, como costumam fazer, me chamar de elitista quando esculhambo Calypso e essas outras paradas chimbicadas. Nada a ver. Como diria o meu amigo Martinho, elitistas são vocês, eu não passo de um pobre pós-joyceano e quem quiser ser como eu vai ter de pestanejar um bocado, um bom bocado. Falando nisso, me passa um brigadeiro.
7. E falando no bregueiro Fernando Mendes lembrei de um namoro dos meus tempos de moleque que ia passar férias em Santarém. Durante uma dessas férias, namorei entre janelas, eu na da casa da minha avó, e a minha Rapunzel na torre, digo, na janela de sua casa, do outro lado da rua.
8. Ficávamos assim, espelhados, em arrulhos de janela a janela, enamorados. Eu teria pouco mais de 10 anos. Ela mais velha pouquinha coisa. Faltava-me a coragem de atravessar a rua e declarar-me. A vizinhança, óbvio, foi testemunha dessa muda paixão platônica, digo, tapajônica.
9. Pois sabem qual era a trilha sonora desse amor intervalado? Era um grande sucesso popular da época, e quem ouviu jamais esquecerá. Era “Cadeira de rodas”, de Fernando Mendes. Claro que você lembra, foi um dos maiores hits musicais do início dos anos 70. “Sentada na porta/ em sua cadeira de rodas ficava/ seus olhos tão lindos sem ter alegria/ tão triste chorava/ mas quando eu passava/ a sua tristeza chegava ao fim/ sua boca pequena no mesmo instante/ sorria pra mim...”. Bateu?
10. Pois bem, como praticamente só via, da minha amada, a metade do corpo que se debruçava sobre a janela, a música alimentava as chamas da minha imaginação, que via a parte oculta de seu corpo entregue a uma cadeira de rodas. Putz, podia acabar a coluna sem essa.

10 comentários:

ELIAS disse...

Salve, companheiro.
Já estou escrevendo essas memórias condor-proustianas, com o título provisório de "Em Busca da Gonorréia Perdida".
Já não se fazem mais gonorréias como antigamente...

Anônimo disse...

Eita ! bateu ; manos ; na jugular da saudade.
Certa vez enchendo os potes pela Belém desses tempos , eu e o grande Manoel Miranda a bordo da tb Belina dos Mirandas ; a única em Belém que tinha o adesivo da estrela solitária no vidro de trás ; resolvemos acabar a noite ou acabar com a noite ,como queiram , dançando boleros com as primas(como se diz por aqui) no Palácio dos Bares , eu já meio de fogo empolgado que estava com minhas primeiras lições de alemão na Casa de Estudos Germanicos que ficava na eterna São Jerônimo , resolví que ia tirar sarro das meninas e tirar uma onda de alemão confiando no meu porte teuto-cearense e parcos conhecimentos germânicos . Na primeira abordagem das meninas comecei a a "cuspir" as bobagens que aprendia ao que fui bombardeado por uma indiazinha mais velha em alemão me dizendo algo como "sua besta , vc nem sabe conjugar direito". Recolhí-me humilhado a minha ignorância e fui pro fundo do bar com direito a uma gozação infindável do puto do Mané "animal" Miranda.
Quase desisti do curso e fiquei uns 3 dias sem aparecer na área.
Elias vc é craque , mano
Beijos
Tadeu Schumann (sem muita convicção)

Osvaldo disse...

Elias, teu texto é arrebatador. A despeito de ser de outra geração, provocou uma dose de nostalgia. De um tempo em sair pela cidade, mesmo caminhando pelas ruas, não se sentia insegurança de agora. Vejamos o exemplo do cotidiano: motoristas em suas picapes assustados nos cruzamentos, em que pese a opulência e a robustez de suas máquinas. Marechal, estavas na vanguarda. Abraços.

citadinokane disse...

Elias,
Acertaste na mosca com o título "Em Busca da Gonorréia Perdida", acrescentaria o subtítulo "amor e paixão na Condor da belle epoque..."
E aí vamos comemorar no Terra ou na Naná???

citadinokane disse...

Tadeu,
Cuidado! "Banzo" mata.
Quero saber direitinho das tuas aventuras condor-proustianas, hein!?

citadinokane disse...

Ei Osvaldo!
Eu não sou da geração do Elias, acabei escrevendo o que o pessoal da velha guarda conta, né?!

ELIAS disse...

Companheiro, confirmadíssimo no Reino da Jamburana. Me liga!

citadinokane disse...

Fale Marechal!
Vamos ao encontro da nossa verdade amanhã, vou te ligar hoje.
abs

ELIAS disse...

Companheiro recruta:
Que hoje é este?
Já estou secando uma Sagatiba (a jamburana que tenho por aqui), e quede? Daqui a dez horas estarei partindo rumo às águas quadradas do Uriboca.

citadinokane disse...

Marechal,
Tudo dominado e seguindo para as águas ao encontro de yaras e as bôtas... ahahaha...