sexta-feira, novembro 19, 2010

Lima Barreto II por Elias Pinto.

O post complementa a matéria que foi publicada domingo passado no jornal "Diário do Pará".
Elias Pinto escreve sobre o escritor "maldito" Lima Barreto.
Boa leitura!

OBRIGATÓRIO PARA JORNALISTAS
Em Isaías Caminha, seu romance de estréia (leitura que ainda hoje deveria ser obrigatória para estudantes de jornalismo e jornalistas de um modo geral), em que disseca os intestinos da imprensa, Lima pagou o atrevimento de cutucar o chamado quarto poder com a pena curta: seu nome foi incluído no índex dos principais jornais cariocas, em particular no Correio da Manhã, cuja redação e direção lhe serviram de matéria-prima para a modelação romanesca. O nome de Lima Barreto foi proibido de ser escrito, no hoje já extinto jornal, mesmo depois da morte do romancista.
Para uma certa crítica (principalmente a contemporânea do escritor), o Isaías Caminha evidencia o temperamento ressentido do autor, que dá vazão às suas amarguras, revoltas e decepções. A sua obra de romancista seria, desta forma, não completamente realizada em decorrência – independente das qualidades que se lhe devem reconhecer – de uma constituição neurótica, somada aos ressentimentos, aos desregramentos, à dipsomania e aos recalques atirados contra uma sociedade de que se acreditava desdenhado. Já a outra ponta da crítica assinala o parentesco universal do mulato nascido em Laranjeiras com escritores cuja marca representa o humanismo que se agita num permanente espírito de luta: Cervantes, Gógol, Dickens, Dostoiévski, Gorki...
Nada mais gogoliano que os personagens de Lima, os humilhados e ofendidos, protagonistas de tragédias de periferia. E é bom não esquecer que Lima Barreto foi um intelectual empenhado, culturalmente robustecido pela leitura dos grandes romances franceses (no original) e russos, de que nos dá prova a “Limana”, o nome que deu à sua biblioteca particular.
Aliás, a par do temário de sua obra incluir praticamente tudo o que de mais relevante oferecia a realidade de sua época – que se reflete de tal forma enovelada em seus textos, concorrendo para compor um imenso mosaico, rude e turbulento da capital da belle époque, que se queria risonha, opulenta e frívola –, é não menos impressionante a galeria de seus personagens, certamente uma das mais vastas e variadas da literatura
brasileira. São burocratas, apaniguados, padrinhos, arrivistas, charlatães, almofadinhas, aristocratas, militares, gente dos subúrbios, desempregados, violeiros, mendigos, ébrios, prostitutas, intelectuais, jornalistas, políticos sem caráter, enfim, uma legião de figuras representativas dos mais diversos meios, praticamente todo o Rio de Janeiro do seu tempo, condensado mais nos seus vícios que nas suas virtudes.

ENFIM, OS CONTOS COMPLETOS
Ao ser lançada em 1952, A Vida de Lima Barreto como que ressuscitou obra e autor, este morto em 1922, aquela habitando o limbo das publicações esparsas e descuidadas. Com sua biografia, Francisco de Assis Barbosa incorporou, definitivamente, Lima Barreto ao nosso cânone literário. Barbosa, ou Chico Barbosa, soube harmonizar a reportagem literária com o sabor da crônica dos bastidores, numa linha paralela à desenvolvida por um conterrâneo seu, da mesma Guaratinguetá paulista, Brito Broca.
A Vida de Lima Barreto fecundou o terreno para que brotassem As Obras Completas do autor, em 17 volumes – enfeixados pela primeira vez sob critérios editoriais de opera omnia –, organizadas com estabelecimento de texto e aparato histórico-literário pelo próprio Francisco de Assis Barbosa, com a assistência de Antonio Houaiss e M.Cavalcanti Proença, enriquecida com prefácios dos principais críticos literários, historiadores, sociólogos e filólogos do período.
Agora, três importantes lançamentos renovam o interesse pela obra do autor. O já citado Contos Completos de Lima Barreto, com organização e introdução de Lilia Moritz Schwarcz, é um volume precioso. Em vida, o autor custeou a publicação de seus livros, editados em versões baratas e com muitos erros.
Em seus diários e correspondência privada sempre lamentou a parca evidência literária que experimentou. Mais tarde, e postumamente, seus romances passaram a merecer edições cuidadosas (nas mencionadas Obras Completas), assim como as crônicas, que em 2004 foram coletadas por Beatriz Resende e Rachel Valença em edição completa.
O mesmo, no entanto, não se podia afirmar em relação aos contos, cuja história das edições muitas vezes se parece com um jogo de quebra-cabeças. A coletânea recém lançada reúne o conjunto completo (149) de contos produzidos por Lima Barreto até hoje conhecidos. Fazem parte desta obra os contos publicados pelo autor em vida; os que ganharam espaço em edições póstumas, publicados sem o aval do escritor; e os deixados sob a forma de manuscritos, completos ou não, guardados em tiras de papel no acervo da
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, muitos deles inéditos. Melhor ainda, foram incluídas notas explicativas sobre o estabelecimento do texto, acerca de termos, expressões locais e personagens utilizados e introduzidos por Lima Barreto. Tanto os contos menos conhecidos quanto alguns mais famosos, como “A nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês”, ressaltam o aspecto autobiográfico que, segundo a organizadora, perpassa toda a carreira do escritor.

ILUSÕES PERDIDAS
Mais de cem anos depois de sua primeira edição, em 1909, o romance de estréia de Lima ganha uma edição gostosamente manuseável, charmosa e editada com esmero, incluída no selo de ficção da Penguin & Companhia das Letras. Ambientado no Rio de Janeiro do começo do século
XX, o livro narra a história de um jovem mulato, culto e inteligente, de origem modesta, cheio de sonhos de glória e reconhecimento intelectual – e a semelhança com a juventude de Lima Barreto não está longe de ser mera coincidência. O romance se constrói em torno das ilusões perdidas de Isaías, revelando o ambiente fútil e superficial da elite da cidade no tempo da grande reforma de Pereira Passos. É a última fase de brilho da Rua do Ouvidor com seus cafés, confeitarias e as redações de grandes jornais (já falei, anteriormente, sobre o Correio da Manhã), em que o sucesso literário esteve sempre associado ao sucesso mundano. Inaugura a literatura militante que o autor exercitará em toda sua obra. Esta edição traz introdução do crítico Alfredo Bosi (texto publicado originalmente em Literatura e Resistência, de 2002), e um prefácio de Francisco de Assis Barbosa, escrito originalmente para a edição de 1961 do romance. Completa o aparato editorial mais de cem notas, preparadas pela historiadora Isabel Lustosa, que desvendam o caráter memorialista deste romance à clef ao apontar as verdadeiras figuras por trás dos personagens.
Finalmente, mas não menos importante, com o refino gráfico e cuidado editorial que acompanham as edições da Cosac Naify, temos o volume Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos. O primeiro é um documento impressionante da internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O segundo, uma novela inacabada, a loucura é matéria para uma história de ficção, com traços autobiográficos. Publicados postumamente, em 1953, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova edição conta com organização e notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, além de trazer um prefácio exclusivo do crítico Alfredo Bosi. Para quem ao morrer no dia 1º de novembro de 1922, vitimado por um colapso cardíaco, resultado do excesso de bebida, e sem dinheiro para o enterro, que foi pago por um amigo – nada mal. A literatura, finalmente, parece dar a Lima Barreto o que este tanto lhe pediu.

P.S.: O título da página homenageia João Antônio, notável intérprete de Lima Barreto, e dialoga com o título de um livro de Antônio, Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto.

2 comentários:

ELIAS disse...

Camarada Pedro:
Tenho prazer em comunicar, a plenos pulmões maiakovskianos, que Cuba, mais uma vez, é nossa.
Retomará seu apogeu, retomando seus tempos de grande bordel.
Vienga, dom Pedrito, El Nelito, ao Tropicana, the most fabulous night-club in the WORLD.
Brazuil terra dye nostra felichidade.
Vienga, Joe Carioca.
WelCOME to Cuba.
My excuses, thousand of apologies for You-There that are freezing in this cold of the rich, that sometimes is the chill of our collness and the sneeze of our colds; the Air Conditioned I mean.
Olé!
Tropicana, the most fabulous night-club!
E mais uma jamburana para o cavalheiro.

citadinokane disse...

Elias,
Sem sacanagem, essa porra da Jamburana faz a gente enrolar a língua e falar outros idiomas, alguns até desaparecidos na atual civilização.
Viva Cuba!
Viva a Jamburana!