quarta-feira, novembro 17, 2010

Lima Barreto por Elias Pinto.

O texto abaixo é do jornalista Elias Ribeiro Pinto e discorre sobre um dos maiores escritores brasileiro: Lima Barreto. E como somos particípes da República do Peixe-Frito, resolvemos divulgar o artigo do nosso partidário para fortalecermos a nossa posição na República comandada pela Tia Naná.
O texto foi publicado no Diário do Pará - domingo (14/11/2010). Vamos publicá-lo em duas partes, ok?
eliaspintopa@uol.com.br

O CALVÁRIO DO MAIS GENIAL PINGUÇO (E PINGENTE) DA LITERATURA BRASILEIRA

Afonso Henriques de Lima Barreto, o genial mulato beberrão – filho do tipógrafo João Henriques e da professora Amália Augusta (escrava liberta, morreu precocemente, quando o filho tinha seis anos) –, nascido em Laranjeiras, Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881, no início da última década do Império (a
abolição da escravatura ocorreu no dia de seu aniversário de sete anos), foi o romancista por excelência da Primeira República, ou República Velha, que as páginas de seus livros espelharam implacavelmente, do Marechal Floriano Peixoto, em Triste Fim de Policarpo Quaresma, passando pelos políticos de Numa e a Ninfa até o Ministro Financeiro Felixhimino ben Karpatoso, de Os Bruzundangas.
Para Caio Prado Júnior, ele foi “um dos maiores, sob muitos aspectos o maior romancista do Brasil”. O não menos implacável crítico Agripino Grieco, taxativo, afiançou: é “o maior e mais brasileiro dos nossos romancistas”. Antonio Houaiss, por sua vez, dele disse ser o “mais engajado e mais desinteressado entre os nossos escritores”. Segundo Luciana Stegagno-Picchio, autora de uma História da Literatura Brasileira, “aqueles que reprovam em Machado de Assis o absenteísmo e a associalidade, encontram em Lima Barreto o substituto ideológico de Machado, aquilo que Machado teria podido ser se não tivesse sido Machado”.
Para o autor de Clara dos Anjos (1948, póstumo), como ele chegou a confessar várias vezes em seus diários, a literatura era uma paixão e um dever, uma forma de existência pela qual sacrificou outras. “Ah! A
Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela”, suspirou, em 1920, em seu Diário do Hospício. Lima Barreto oscilou, em sua obra, entre o engajamento e o ressentimento, a confundir autor e narrador, a biografia fermentando a literatura e vice-versa. Sua história pessoal inunda a narrativa. Ao canalizar a vida para essa literatura, que lhe servia não só de expressão artística mas também de válvula de escape, tal qual os entorpecimentos alcoólicos, esta doação, paradoxalmente, comprometeu sua força como escritor. Enquanto este se singularizava naquela época beletrística e acrítica por força de seu gênio indomável, a expressão artística não se realizou plenamente – o ficcionista fracionou-se, expôs-se à irregularidade da obra.
Como assinala a historiadora Lilia Moritz Schwarcz (na introdução ao recém-lançado volume Contos Completos de Lima Barreto, análise que desde já se impõe, por sua excelência, como obrigatória para o entendimento do escritor e sua época), temos diante de nós uma personalidade complexa, ambivalente, que batalha pela autonomia de sua escrita mas se sente inadaptada e incapacitada de realizar tal propósito, por conta de sua origem social e étnica ou seu desempenho em sociedade (tema freqüente em suas crônicas, romances, diários e contos).
As ambivalências de Lima se traduzem nas inúmeras dificuldades enfrentadas por um escritor negro, pobre e do subúrbio que, para vingar no nascente mercado das letras nacionais, atuou em muitos sentidos e de maneiras variadas. Construiu sua literatura como uma espécie de voz isolada das periferias (ele praticamente inaugurou, no romance, o subúrbio carioca, esse “refúgio dos infelizes”, do qual ele era expoente); transformou-se em algoz do feminismo nascente (a despeito de criar personagens comoventes entre mães, amantes e empregadas); destacou-se como interlocutor crítico das teorias científicas ou arauto desconfiado da modernidade; fez-se escritor negro numa sociedade dada a todo tipo de jogo social no sentido de camuflar e não evidenciar a cor. Ele foi o primeiro autor brasileiro a se reconhecer e definir como literato negro. Assim ele constrói uma literatura negra.

VIA-SACRA DOS BÊBADOS
Hoje reconhecido como um pioneiro no romance social no Brasil, a literatura de Lima Barreto consolida-se a partir de um repertório de diferenças: negro em meio a uma sociedade intelectual branca; pobre (consegue seu ganha-pão com um posto modesto no serviço público, sendo nomeado em concurso de 1903 como amanuense da Secretaria de Guerra), num contexto social com aspirações e ares de riqueza; morador do subúrbio que circula entre pares da corte, além de dificuldades afetivas.
Frente aos reveses da vida, o homem desperdiçou-se no álcool, onde foi buscar abrigo a uma vida pela metade. À outra metade, a literatura, ele não conseguiu imprimir a força capaz de combater o discurso de corte acadêmico de sua época e triunfar – ao menos da forma como, em sua ambivalência, pretendeu, a exemplo das frustradas tentativas de ingressar na Academia Brasileira de Letras; a primeira não foi sequer considerada, e numa terceira vez ele retirou a candidatura.
“No álcool, procurava anular-se por completo, ser esquecido, desaparecer. Na literatura, ao inverso, tentava afirmar-se, ser alguém, deixar em suma a marca da sua passagem na terra”, registra seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa.
“O uso imoderado do álcool não tardaria a se manifestar de modo desastroso na saúde de Lima Barreto. Alimentando-se mal, passando dias inteiros sem comer, a perambular pelos bares e botequins da cidade, cumprindo a via-sacra dos bêbedos, ia sucumbindo aos poucos no desregramento da vida boêmia”, diz Barbosa em A Vida de Lima Barreto (é de 1952 sua primeira edição), que já foi considerada (e hoje segue sendo um clássico) a melhor biografia de um escritor brasileiro.
Mas não pense o leitor que, ao longo de seus escassos 41 anos de vida, em meio a atribulações domésticas, calvários e porres, Lima Barreto quedou-se estéril. O seu volume de produção é um dos mais expressivos e intensos de que se tem notícia no Brasil, ainda mais se considerarmos que após 1918 (quatro anos antes de morrer) ele esteve eclipsado pelo alcoolismo e pelas internações em sanatório e que, aos 37 anos, foi considerado inválido para o serviço público. E desde cedo conviveu com o pai louco dentro de casa (que morreu dois dias depois da morte do filho). Ainda assim, produziu textos para 17 volumes em livro.
Podemos dizer que nos restaram espasmos de uma grande arte, o que se pode constatar em seus três romances mais célebres: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (sua obra-prima, de 1916) e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (e há quem veja neste o seu melhor romance, de 1919), onde ele alcança, entre um desnível e outro, seus momentos mais altos, momentos mais altos talvez condensados em alguns de seus contos, onde a brevidade do gênero escapou à irregularidade do romance, e de que são exemplos “O homem que sabia javanês” e “A nova Califórnia”, peças dignas de figurar no melhor do conto universal.

6 comentários:

Osvaldo disse...

Bom dia, caro Pedro.

Espero que a publicação do mais recente artigo, dominical, do Elias Pinto, presidente eleito, sirva de incentivo à leitura, tanto dos livros quantos de jornais.

Fica a dica: Elias Pinto escreve às terças, às quartas e às quintas (TQQ) e aos Domingos, no Caderno Você, do Diário do Pará.

citadinokane disse...

Égua Osvaldo!
Deste o serviço do nosso Marechal, hein!?
abs

Anônimo disse...

O companheiro agora me levou às lágrimas, tocado pela revelação de meu grau de marechal, ainda que sob a eterna fritura dos tristes trópicos. Mas vamos alegrar com uma jamburana direto nos cano.
E às sextas também, companheiro Osvaldo, que este marechal é de ferro.

Osvaldo disse...

Melhor ainda, Marechal dos Livros, às sextas. Aos sábados, folga para refugiar-se na Terra do Meio e na Rep. Peixe-Frito; segunda, pausa para superação dos efeitos jamburânicos e pensar nos próximos artigos. Bom sábados a nós! Abraços.

citadinokane disse...

Elias,
Marechal de ferro mesmo!
De ferro e jamburana, ou seria mais jamburana que ferro???

citadinokane disse...

Osvaldo é isso aí.
O nosso Marechal quando chega o sábado, ele dá uma bicuda nas convenções mundanas e mergulha na jamburana de corpo e alma, sob o olhar compassivo do André Nunes que o reanima com uma dose de cachaça com pó de carapaça de tartaruga gigante do uriboca, casco raspado com a língua de pirarucu do xingu...
A graciosa garçonete Naná ainda o fisga para a República com uma posta generosa de peixe com uma pimenta de cheiro amassada no prato.
abs