quarta-feira, dezembro 08, 2010

SOS Garaio! por Elias Pinto.

O nosso amigo jamburânico Elias Pinto escreve no "Diário do Pará" nos dias de terça a sexta-feira e no domingo. Elias é um cronista de mão-cheia, sem essa pretensão vai escrevendo sobre as suas vivências e sobre a nossa Belém.
Elias enriquece a todos com os seus textos, humor refinado, sacadas legais...
Estamos falando de alguém que recebe livros do Brasil inteiro, é isso mesmo! O velho e bom Elias não tem mais lugar em sua casa para guardar livros (verdade!), inclusive vou solicitar dele alguns para a gente distribuir aqui no blog. Será que ele topa?
Abaixo a coluna de domingo do "Diário do Pará" em homenagem ao alemão mais cearense do Brasil - Tadeu Schumann.

SOS Garaio! (Elias Pinto)
1 Lá pelo ano de 1981 pica-pau (como podia ter sido em 1980 ou 1982; era por ali), eu tinha três carros na garagem. Uma Belina da hora, um SP-2 recuperado praticamente porca a porca, e um Chevette que o meu pai achara melhor retomar do Raimundo José, meu irmão, por motivos que eu já não lembro bem. Teria sido por alguma barbeiragem do Zé, alguma deficiência de visão noturna, pois na época ele passava por um sério tratamento de vista? Como disse, não lembro.
2 Sei é que o Chevette veio se juntar à Belina e ao SP-2 na garagem. Quer dizer, os três na cabiam na pequena garagem e um tinha de dormir na calçada em frente. No embalo daquelas jovens tardes de universitário, rumo ao Vadião, na UFPA, ou às quebradas da vida, eu até escolhia a roupa de acordo com a cor do carro, para combinar. O amarelo da Belina, o vermelho-sangue do SP-2 e... Qual era a cor do Chevette?
3 O curioso, quanto ao Chevette, é que, na estrada, a mais de cem por hora, me fura o pneu do bólido, que sai da estrada e segue coiceando, feito cavalo xucro no rodeio, mato adentro. Como estou escrevendo esta coluna, sobrevivi. Outra vez (a última do Chevette), vínhamos, na Cidade Velha, pela Ângelo Custódio, eu ao volante, Banica, mais o Aldo, acho, e um quarto que agora não atino. Seria Antonio Osvaldo, o hoje célebre Toninho da Bocaiúva? Vínhamos festivos, que nem o pato da música, quando me rompe um outro carro, pela Joaquim Távora, e quase nos racha ao meio. Saímos rebolando e acabamos no muro da casa da esquina, todos (mais ou menos) sãos e salvos. E eu vinha na mão, poxa. Mas isso não serviu como atenuante e o papai também me tomou o Chevette – do qual já não se aproveitaria grande coisa. E o barbeiro era o Raimundo...
4 Não, eu dirigia bem. Na campanha política de 1982, papai candidato a deputado federal, rodei por boa parte das estradas do fundão desse Pará – estradas terríveis, de terra, que viravam sabão na chuva. Viajava de dia, de noite, de madrugada. Sempre na Belina, que já era uma extensão do meu braço, do meu corpo.
5 Belina que teve, como o Chevette, um final inglório. Eu vinha pela Boaventura, esquina com a Alcindo Cacela, quando meu pé dormiu – câimbra. Deve ter sido a primeira vez que não foi o motorista que, por inteiro, dormiu, mas o seu pé. Será que isso pode servir como exemplo metonímico, a parte pelo todo? Eu simplesmente não conseguia levantá-lo para pisar no freio. Nem deu tempo para puxar o freio de mão, pois eu já estava no meio do cruzamento. Torci para que, naquele momento, nenhum carro passasse. Mas passou. Um ônibus. Me pegou pela rabeira, saí rodando, rodopiando, entrei no térreo de uma casa. Ao golpe do estrondo, um de seus moradores desceu correndo pela escada. Era um amigo, o Manoel. Pedi desculpa pelo mau jeito. Da próxima vez, prometi, tocaria a campainha. O carro, uma sanfona. Imprestável. Vi-o pela última vez sendo levado pelo reboque. Eu? Desmenti um dedo.
6 Com o SP-2 foi menos trágico. Um dia ainda escrevo uma coluna inteira para contar seus feitos e desfeitas. Ele era uma versão, mais em conta, do esportivo Puma. Dois lugares. Rebaixado. Carro de playboy. Peguei-o na oficina, um esqueleto só. Como disse, foi recuperado peça a peça, centavo a centavo, meses de trabalho meticuloso. Fazia sucesso com as meninas. Mas jamais consegui que dessem um jeito no seu motor VW. Um dia, a caminho do campus do Guamá, vítima de mais um prego, espoletei. Larguei-o lá, no meio-fio. Nem fui buscá-lo. Vendi para o dono da oficina de quem eu era freguês contumaz para reparos no motor. Sintomaticamente, depois que ele me comprou o carro, via-o passar diariamente sob minha janela, ao que parece, com o motor ronronando como um tigre.
7 Tive outros carros não menos folclóricos. Um Dodginho 1800, conhecido como Providence. Chovia mais dentro que fora, por isso, um balde lhe era item obrigatório.
8 Hoje, diante desse trânsito, meu último desejo é ter um carro. A não ser que seja para lazer, ir até Mosqueiro (ao Paraíso, claro), Marudá (Algodoal, óbvio) ou no Terra do Meio, do compadre meu André Costa Nunes (para uma jamburana, evidente). Enquanto isso, sigo a pé (e com pés bem acordados), por que bairro for, qualquer que seja a hora, no Reduto, Cidade Velha, Pedreira, Umarizal, Jurunas ou Tapanã. Enfrentando chuva, bandido e canivetes. Em último caso, se precisar ser rebocado da República do Peixe Frito, aciono o SOS Garaio. Tem dado certo.

2 comentários:

Osvaldo disse...

Cara Elias,
O serviço prestado pelo SOS GARAIO é eficiente, com certificação TERRA DO MEIO 2010.
E o melhor, abrange os melhores botecos da RMB: RPF, Salomão, Portela, Rubão, Ranufo, Mauro, dentre outros.
Dele já usufruir do excelente atendimento: climatizado e música de qualidade.
Em suma, SOS Garaio é Paidégua.
Abraços

citadinokane disse...

Pô Osvaldo!
Garaio!
Boa música e até jamburana... ahahaha...