sexta-feira, março 04, 2011

Crônicas sobre o Xingu V por André Nunes - Epílogo.

"Atrás de mim, no gramado do canteiro da “avenida”, o Restaurante
Tucunaré arruma as mesas para o jantar.
A brisa sopra morna das bandas da Serra dos Assurinins.
O André, neto da Mãe Maroca, que faz as vezes de garçom, interrompe-me o devaneio e pergunta-me: - tio, não quer uma mesa e uma cerveja bem gelada?
Sorrio e recuso. Peço apenas um copo de cachaça.
- que marca?
- qualquer uma.
- pura?
- pura.
Devo estar lá pelo terceiro ou quarto copo.
A lua saiu. Está quase a pino e não lhe dei a devida atenção. É imperdoável, mas no momento, ela não é o foco das atenções.
Ela não vai morrer tragada pelas águas do lago que se formará depois que barrarem o Xingu em Belo Monte, para, diz-que construir uma hidrelétrica.
Está decidido. Data marcada para morrer. É inexorável.
Não, como a primavera de Neruda determinada pela sazonalidade. Pelas estações do ano, que se sucedem desde sempre.
Mas pelo cronograma das empreiteiras.
Divago, sem angústia, sobre o destino da Ilha do Arapujá que um dia elegi irmã siamesa.
As águas subirão lentamente. Como se viu, o veredicto foi dado. Vai morrer. O diagnóstico foi de câncer linfático. Agressivo. Galopante.
O mínimo que poderei fazer é sentar-lhe à cabeceira, como um acompanhante de moribundo.
Como não sei rezar, abrirei um livro e o lerei. Ora mudo, ora em voz alta. Prosa, ou verso. Prosa e verso. Mais verso do que prosa.
O “verbo” de que fala o Gênesis, eu juro que era um poema. Esse “no princípio era o verbo” nunca me enganou.
A Ilha do Arapujá vai morrer. De câncer. A comparação é inevitável. Quando começarão as sessões de quimioterapia?
Os cabelos caem. Morrem.
O certo é antecipar-se e cortá-los logo. O mais rente possível. Todo mundo que tem esse tipo agressivo de câncer faz isso.
Deste ponto de observação onde me encontro vou ficar de vigília.
Se à boca da noite lendo um livro e ouvindo Vinícius: “...e uma garrafa por perto, porque você pode estar certo, que vai chorar”.
Se ao amanhecer, que é quando a azáfama começa, Missa Criolla de Ariel Ramirez.
E, assim, ao som de José Carreras, e da Sociedad Coral de Bilbao, ou da Fafá de Belém. Rema, meu mano, rema, do Ruy Barata, verei as balsas saindo, repletas de máquinas, moto-serras e algozes inocentes,
partindo para a tosa.
Em pouco tempo toda a mata estará no chão. Será possível ver através da ilha, a outra margem do Xingu que ela em vão tentou resguardar.
Ela, e os assurinins, nos tempos de guerreiros.
Estará pelada. Sem pompa ou circunstância. Sem a altivez de outrora. Humilhada.
Nesta hora deixarei meu posto e farei, a quem de direito, o último apelo: Um funeral decente. Que não se use a hipocrisia de doar a floresta tombada para instituições ditas filantrópicas fazerem, por quaisquer
dez réis de mel coado, tábuas de péssima qualidade, ou mesmo carvão para a siderurgia.
Que olimpicamente ateie-se fogo à madeira/madeixa e imagine-se, como última homenagem, que seja uma nau viking levando, em chamas, um grande guerreiro para o Valhala.
Ou, mesmo, uma simples pira funerária hindu a espera de ser arrastada e purificada pelo Ganges.

Lembra daquele vaticínio de que falei no início? Pois é. Minha parte eu cumpri.
Não fiquei velho.
A Ilha do Arapujá, não cumpriu a dela.
Vai morrer... Vamos morrer."

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Postado no blog do André Costa Nunes
tipoassimfolhetim.wordpress.com

2 comentários:

Sandra disse...

Muito bonito,pena que não se pode fazer nada,a hidrelétrica de fato vai ser construida só nós resta lamentar.
bjs

citadinokane disse...

Sandra,
Tenho essa sensação... Horrível!