Vitória Régia (David Carneiro)
Por que águas vago como náufrago
Com a ira de Tuxaua sobre o peito?
Régios sejam estes santos mares
Que me correm baldios para um leito!
Encontro no tormento a forasteira
E é no seu colo que me desmancho e deito
É a vitória de Jaci que vem surgindo
O encanto vai se abrindo do desfeito
Caí da morte bem na colcha dos seus braços
Pudera eu sortir-lhe como outrora
O giro dos meus passos lancinantes
A cadência do meu boto na memória!
Toda Maiá por Jaci quer ser beijada
Ao meu toque, inicia-se o feitiço
Das palavras que despertam sua chama
De sua dança que desperta o meu viço
Beijo sua flor com mil palavras
Abre-se em sua boca um sorriso
Temo em quebrá-la com olhares
Dispo com meus olhos seu vestido
Quisera Deus afogar-me antes
Nas águas deste mesmo Tapajós
Para encontrar-me nesses mesmos braços
Rodando nesses mesmos carimbós
Que fogo é esse que encharca e queima?
Esse perfume de estrelas se expandindo?
É doce ser escravo desse pensamento
Que em vermelho no teu peito vou tingindo
Teu nome escreverei na embarcação
Guardando pelos rios nosso momento
Presente dos deuses no meu leito
Estrela que caiu do firmamento!
São Paulo, 2011

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