Comprei a revista e resolvi guardar com muito zelo, só hoje a reencontrei, a homenagem de Pedro Galvão ao homem que virou uma legenda na luta contra todo tipo de opressão é emocionante.
O texto é longo, mas... Vale a leitura.
Pedro Galvão é renomado publicitário. No passado foi ligado ao movimento estudantil e foi preso pela ditadura. Sobreviveu e tocou a vida.
Abaixo a homenagem aos 40 anos da morte de Guevara.
A Segunda Morte do Che (Pedro Galvão)
Es un trámite morir.
Atribuído a Don Francisco
de Quevedo y Villegas
As rugas já não rasgam no seu rosto
as nervuras da morte. O nó da asma
já não mais o estrangula, nem desgosto,
nem diarréia, nem vômito ou fantasma
de dor, tortura e medo. O coração
jaz em paz
jaz em paz?
já se fez pó,
o cérebro está morto – o sonho, não –
nem cadáver mais resta, agora é só
ossos, mas ossos de um guerreiro, vivo
como jamás quisieran que estuviera.
Agora que está morto é mais esquivo,
além de toda bala e toda Higuera.
Resta o sonho a matar, resta esse mito,
um c, um h, um e, morto infinito.
“É preciso matar sua coragem
até que reste apenas covardia.
É preciso matar o herói-miragem
até que reste apenas vilania.
É preciso matar sua beleza
até que reste apenas sua feiúra.
E até que reste apenas sua frieza
é preciso matar sua ternura.
É preciso matar sua piedade,
é preciso matar-lhe o aroma e a flor,
até que reste apenas crueldade,
até que reste apenas seu fedor.
É preciso matar sua memória
até que reste apenas sua escória.”
“We must kill him. O, we gotta kill him
anywhere, elsewhere, everywhere.
Ô gunfighters do mundo, dai um fim
à tão sinistra luz, a luz esquerda
que assombra e, sem medo, engatilhai
Macintoshes, mirai, usai o Windows
– ó épicos satélites, rastreai
o olhar campeador (o mais ruim dos)
e os passos que não passam –, com o florete
da palavra mais livre e seus repiques
em googles e youtubes, na internet,
por CNNs e times e newsweeks,
deletai as três letras que empeçonham
os sonhos desses loucos que ainda sonham.”
“¿Qué sé yo de la muerte? No sé nada.
De la vida sabré tal vez un poco,
de hambre y hombres, de lucha apasionada.
De morir sí, lo sé, tránsito loco
entre dos tiros, dos tinieblas, dos
punzones en el pecho sin dolor,
o entre vida y no vida, no más, los
ojos como entornados y el rigor
final de los juicios que te alaban
o te destruyen. Y os diré: morir
es solo un trámite, todos se acaban
aunque paguen el precio de vivir
por la causa del Hombre o, así lo quieras,
del odio, sus pasiones, sus banderas.”
“Matai, matai o morto que não morre
e está no céu
– no inferno? –,
está emboscado
nas tocaias da morte e à vida acorre
dando sangue ao terror, torvo legado.
Agora que está morto é mais difícil
matá-lo. Ele se esconde em mil obscuros
altares ou covis e sub-reptício
coleia em vossa mente, ei-lo intramuros
em vossa má-consciência, na obsessão
de vencer o vencido vencedor,
na pedra de rancor do coração.
Mas primeiro limpai todo rancor
de vossa alma. E matai esse herói torto,
matai o que não morre, morte ao morto.”
Nas revistas, refém, o ressuscitam
para matá-lo enfim completamente.
Mas como se, nas fotos que nos fitam
com dureza ou ternura, o olhar não mente?
Nesta foto de Korda, o camarada:
olhar campeador, encara o tempo
e conduz sua bandeira estraçalhada
na luta mais feroz, sonho irredempto.
Matar como, esse olhar, se frente à morte,
se até na última foto do Che vivo,
não há ódio nem medo ao cão e à sorte,
mas só o olhar humano, compassivo
– frente à metralhadora e ao assassino –,
de quem sabe que a morte é seu destino?
Ei-lo vivo na morte, Cid ou Che,
conduzindo a bandeira, não na aurora
mas sozinho na noite, sem mercê:
um homem, sua coragem, tempo afora.
Nenhum deus há no céu a defendê-lo
na luta além da morte, só a memória
e o peito de homens justos, só o desvelo
de guardar a grandeza de sua história.
Chegai, chegai, reuni vossa brigada
e resgatai sua áspera ternura,
até que nasça outro hombre em nossa estrada,
otro hombre raro y rico de aventura.
Na luta contra o algoz, quem o socorre?
Salvai, salvai o morto que não morre.












































