domingo, janeiro 03, 2016

Tudo que é sólido desmancha no ar...



Do livro de Marshall Berman, edição brasileira de 1992,  título: Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Editora Companhia das Letras.


No século XX, os processos sociais que dão vida a esse turbilhão, mantendo-se num perpétuo estado de vir-a-ser, vêm a chamar-se "modernização". (Marshall Berman)
O título do livro é extraído do "Manifesto do Partido Comunista" de Marx e Engels, uma passagem em que Marx sustenta que todas as instituições existentes se desfazem diante das contradições do sistema capitalista, tudo que é sólido se desmancha no ar...
A "modernidade" que se impunha ao final do século XVIII tem um porta-voz: Jean-Jacques Rousseau. 
Para Berman Rousseau  é a matriz de algumas das mais vitais tradições modernas, do devaneio nostálgico à auto-especulação psicanalítica e à democracia participativa... 
Na sua romântica novela A Nova Heloísa, Rousseau fala através do jovem herói - Saint-Preux, que realiza um movimento exploratório - um movimento arquetípico para milhões de jovens nas épocas seguintes - do campo para a cidade. 
Saint-Preux depois de chegar à cidade, ele escreve para sua amada Julie, das profundezas do turbilhão social - Paris.

Após alguns meses nesse meio, eu começo a sentir a embriaguez  a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar.
Ainda estamos impregnados desses sentimentos? 
O que faz a multidão nos templos religiosos? As pessoas continuam buscando saber: o que sou e qual o meu lugar?
Finalizo sem dar respostas, reproduzirei a fala de Nietzsche, não sei se acalmará os corações dos incautos: 

A moderna humanidade se vê em meio a uma enorme ausência e vazio de valores, mas, ao mesmo tempo, em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades.(Nietzsche)

Street Art de Sérgio Odeith

Sérgio Odeith é um artista português.
Arte de rua, street art...
Odeith cria ilusões óticas fantásticas!!!
Confira aí o grafite do gajo!


O grafite acima foi eleito como um dos 24 melhores murais do mundo em 2014, pelo "International I Support Street Art", o nome da arte - "O rapaz dos pássaros".


Eis o melhor trabalho de Odeith, segundo o próprio artista português. Ele denominou o seu grafite de Crocodilo 3D.
Admiro muito a arte de rua, ela provoca novas emoções...
Como não fica assustado com esse crocodilo saindo do muro, né?!
Feliz 2016!

Homem Cordial x Homem Troglodita

2016 chegou...

Como poderei descrever 2015?

O ano em que perdemos a delicadeza, a cordialidade...

No livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda mostra que na formação da sociedade brasileira as relações familiares eram mais importantes e respeitadas que as relações constituídas entre os cidadãos, e estes com o Estado. 

Uma marca do relacionamento social do brasileiro sempre foi a "cordialidade", isto é, o predomínio de relações humanas mais simples e diretas, evitando-se o distanciamento social, proporcionando uma maior aproximação, maior intimidade, tornando pessoas e objetos mais familiares, mais acessíveis...

A cordialidade é a materialização da "cultura da personalidade" que vem desde o Brasil colonial.

Com a modernização do Brasil e sua industrialização, o meio urbano acabou se sobrepondo ao rural, e a "cordialidade"(herança ibérica) ao ser confrontada com as novas relações sociais (racionais) engendradas pelo capitalismo moderno, acabou enfraquecida...

No futebol encontramos a "cordialidade" resistindo, expressa no tratamento e nos nomes dados aos jogadores: Paulinho, Zezinho, Zico, Pelé... Apelidos e diminutivos que buscam evitar a distância social.

No atual momento político do Brasil temos uma ruptura com a "cordialidade", e 2015 falou bem alto neste sentido, a cordialidade enquanto representação de relações humanas mais afetivas, vivas e menos abstratas, sempre se apresentou como uma resistência ao processo clássico da racionalização das culturas européias, que levaram, definitivamente, a uma impessoalização das relações sociais

A cordialidade está morta e enterrada, os coveiros, simbolicamente representados pelos playboys do Leblon que agrediram um ícone nacional - Chico Buarque.

Em 2016 esperamos mais respeito aos que pensam diferente da gente, nada de agressões físicas e verbais, é bom parar com isso, podemos entrar num caminho sem volta...

Quem discorda na política de partidos e candidatos, se organize e dispute no voto, se for vitorioso, parabéns! Se for derrotado, se organize melhor e dispute as próximas eleições, ok?!

No lugar do "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda, surge o "homem troglodita" com roupagem fascista, com um discurso antipartidário, e desprovido de qualquer justificativa racional para confrontar com quem pensa diferente... Benito Mussolini e Adolf Hitler empreenderam no século passado não somente o embate político contra os adversários... Levaram a intolerância ao nível do aniquilamento físico dos adversários.

Aí toda a humanidade mergulhou numa noite longa de sofrimento.